29.1.07

Nação Zumbi, Tom Zé e Mutantes - Praça da Independência - 25/01/07


Um dia no Parque
Nação Zumbi, Tom Zé e Mutantes


Assim que desci do ônibus, começou a chover. Apenas uma grade me separava do Parque da Independência, mas ainda estava longe da entrada. Enquanto isso, conversava com Willian, um senhor de meia idade que veio comigo no ônibus. Ele ia declamando suas poesias enquanto tentávamos nos abrigar da chuva. Não que aquilo preocupasse muito.

Com sua garrafa plástica de vinho debaixo do braço, Willian andava desviando das pessoas que vinham em direção contrária, e ficou bem animado quando lhe disse que a primeira banda a tocar seria Nação Zumbi. Só sabia que os Mutantes tocariam. Quando falei em Tom Zé, não pareceu se animar tanto, mas Nação Zumbi... pelo visto gostava mais deste do que Mutantes.

Nos despedimos e fiquei abrigado em uma barraquinha de milho. O cheiro, aquele infeliz e delicioso cheiro de milho quentinho me obrigou a comê-lo. Fiz. Acabei de comer e eram quatro e meia da tarde. O show, programado para começar quatro horas, ainda nem dava sinais de vida. A chuva só fazia aumentar. Vi então uma amiga de faculdade e fui conversar com ela. Ela me emprestou um guarda-chuva reserva e me apresentou uma amiga bonita.

Conversamos um pouco sobre coisas comuns e decidimos tentar entrar. Era uma tarefa árdua, já que a polícia havia barrado a passagem e só deixava as pessoas entrarem a conta-gotas. Depois de alguns pontapés e cotoveladas, entramos. Nessa hora, faltando dez minutos pras cinco, já começava a parar de chover.

O segurança me revistou e pediu pra verificar minha mochila. Disse que não podia entrar com a garrafa de água, já que a Sabesp tinha instalado alguns postos de água grátis dentro do parque. Dei minha garrafa aos policiais, que, diga-se de passagem, culpa nenhuma têm por essa ordem sem nexo, apenas estão lá, suando e sendo odiados. Não preciso nem dizer que não vimos nenhum posto de água, e não fosse pelas minhas amigas entrarem com garrafas escondidas no fundo de suas malas, morreríamos de sede. Lá dentro, vendedores desfilavam com garrafas de vinho a preços “módicos”.

Atrás do palco a linda estátua da independência, mesmo coberta em grande parte pelo palco, não perdia sua imponência. Olhando para trás, do outro lado da rua, o Museu da Independência. É, sem dúvida, um dos lugares mais lindos de São Paulo, e um local perfeito para um daqueles festivais antológicos que os magnatas sempre sonham em realizar.

Nação Zumbi
Enquanto andávamos até o palco, o som começou a rolar. Um som que misturava um rock daqueles bons e pesados com percussões brasileiras, de maracatu. Quem ouve entende porque o estilo é chamado de Maracatu Atômico.

Muitas pessoas estavam lá só pra ouví-los, e foram embora quando acabou. Quem foi pra ver Mutantes ou Tom Zé, em geral, não se animou muito. O pessoal que estava na frente e havia enfrentado a chuva com coragem pulava e se esbaldava.

Uma mistura de sons novos com rits da época de Chico Science, um dos mais importantes músicos brasileiros do último século. Uma banda que continuou mesmo com a morte de seu criador.

De onde estava, um pouco pra frente da metade do parque, via alguns rostos dançantes e alguns chateados. Enquanto uns curtiam, outros só queriam que acabasse.

E acabou. Sem bis, a banda deixou o palco que começou a se preparar para seu próximo episódio: aquele do Tom Zé.

Tom Zé
Vestido de vitrola, entrou aquele que era underground entre os perseguidos pela ditadura. Aquele que em plena repressão militar - a qualquer um que respirasse liberdade - fez um disco cuja capa, que parece ser um olho, nada mais é do que um ânus com uma bola de gude no meio.

Este ser, até hoje novo e doido, começou a cantar. Atrás do palco, Zélia Duncan só vendo, curtindo, admirando Tom Zé.

Como um moleque, chegou pulando. Ensinava frases ao público, que as repetia, rindo. Parava as músicas no meio para ensinar os refrões. Novamente, o público mais perto do palco foi o que mais curtiu. Aquelas pessoas com cara de caneca (sabe aquela cara que você faz quando ganha uma caneca?) que não curtiram o show anterior também não manifestavam outro humor aqui.

Mas, com certeza, quem mais aproveitava o show era Tom Zé. Mais do que qualquer outro. Como disse Marcelo Rubens Paiva em Feliz Ano Velho, esse artista é um dos que ainda não foi integralmente reconhecido. Assim como Hermeto Paschoal. É o mal daqueles que inovam musicalmente; são taxados de esquisitos e por isso colocados em uma prateleira à parte.

O parque já estava totalmente tomado então. Andar era tarefa para os bons, mas mesmo assim era fácil encontrar amigos. Encontrei alguns, que me davam diferentes panoramas e opiniões sobre os shows. Depois que voltei pra casa, descobri tantos outros que também foram e não encontrei.

Então eu e as duas meninas que estavam comigo fomos em nossa longa migração para o mais perto do palco que conseguimos. Afinal, em pouco tempo começaria o show dos Mutantes. Um Mutantes sem Rita Lee, é verdade, mas Mutantes.

Os Mutantes
Conseguimos ficar relativamente perto. O suficiente para ver sua chegada triunfal. Vi aqueles antológicos músicos entrarem em roupas que condiziam com o lugar. Sérgio Dias estava vestido de Dom Pedro, Zélia Duncan de donzela. Segundo estimativas da polícia militar, cerca de 50 mil pessoas estavam lá para conferir o show.

Minha fidelidade à Rita Lee foi então quebrada. Apesar de fã dos Mutantes, e de ser um daqueles que não são muito adeptos a tais mudanças, tive de me render: nunca vi a banda como nesse dia. Zélia Duncan parece ter nascido para cantar com Sérgio Dias e Cia.

A cantora não conseguia tirar o sorriso do rosto. Mas não era aqueles sorrisos de pagodeiro em clipe da MTV não, era um sorriso de criança, como quem não se agüenta de tão feliz. Os outros Mutantes, com cara blasé, curtiam igualmente.

Um som inteiro, completo. Os fãs de Mutantes aguçavam a visão para ver seus ídolos, pulavam, gritavam. Parafraseando uma amiga, é como se Raul Seixas voltasse e fizesse um show. De graça.

Eles são a mais perfeita tradução da cidade de São Paulo, como já cantou Caetano. Uma cidade deste tamanho e que tem tão poucos referenciais na música. A única banda paulistana da noite. Cantaram parabéns pra você, já que era aniversário de Sampa, e todos acompanharam.

Uma mescla de Yes com Beatles, variando rifs de guitarra com teclados viajantes, os Mutantes tocaram e o público agradeceu. Mutantes clássico, como não poderia ser diferente. Mutantes para se ouvir três vezes. Principalmente quando chamaram Tom Zé para cantar uma música.

As músicas que tocaram foram as tradicionais: Ando meio desligado, Balada de um louco, Minha menina, Panis et Circensis, entre outras. Se faltasse alguma dessas, muitos fãs voltariam para casa desolados.

Para olhos e ouvidos atentos, foi um show para por no currículo. Valeu cada gota de chuva.

Nota
Nação Zumbi – 8,5
Tom Zé – 9
Mutantes – 9,5

Custos
Bolacha e água – R$ 2,50 (sim, a água que dei quase inteira)
Milho – R$ 1,00
Ônibus – R$ 4,60 (férias não tem bilhete único)

Total - R$ 8,10

Você estava lá? Deixe um comentário descrevendo o que você viu, qual sua opinião sobre os shows, críticas, apelos ou etcéteras!

16 comentários:

Inazuma disse...

simplismente o melhor shos da minha vida ,e acho que num vai ter melhor não,simplismente porque metade dos beatles ja morreram........

Leandro Robson disse...

O Show Foi magnífico, o melhor de minha vida tbm... Ver o Arnaldo cantar Dia 36, foi mto bom... Foi a realização de um sonho, que já se dava com perdido. Mais não, aconteceu, e eu? Eu, tava lá!!!

Anônimo disse...

Nesse dia só vi mutantes...curto Nação mas a voz do Jorge du Peixe me irrita na terceira música...prefiro o Bola cantando.
Tom Zé ey não tenho mais saco pra ver esse tipo de chatice.
Mutantes fez um show OK. Claro que algumas músicas a Rita fez falta. Quem já viu Rita ao vivo sabe de sua extensão vocal. Sergio Dias tocando e arranjando é gênio...mas falando é uma mala boçal. E o teclado do Arnaldo continua desligado...rsrs - Normal
Parabéns ao público. Comportou-se como se deve a um evento gratuíto. Com esse tipo de atitudo só temos a ganharmos mais shows.
Abraços

William Dubal disse...

Gostei da proposta desse blog!
Eu estava no show. Foi inesquecível...

Achei o Tom Zé melhor, mas Mutantes também foi sem palavras.

Vai ser difícil juntar tanta gente boa assim em um dia só novamente.

Abraço!

Roy Frenkiel disse...

Eu os assisti aqui em Miami, rapaz!

Seu texto esta la no Reaction ;-)

abrax

RF

Anônimo disse...

Realmente o show foi mt bom!!! Não só pelas bandas e pela figura do Tom Zé, mas também pela cia..rs Valeu cada gota de chuva e o perigo de ser presa como traficante de água...
bjs

Camila. disse...

A animação de participar de um evento coletivo, e de graça, em nenhum momento se desfez. É chuva, é portão fechado, é música desconhecida ou muvuca, nada me impediu de aproveitar plenamente o show. E q show! Senti-me viva como há mto tempo não ocorria, ver aquele museu magnífico, a estátua e o melhor, as pessoas. Mesmo não morando na capital, a festa era minha. Um pouco disso foi dito pelo Luciano, com seu linguajar agradável, descritivo e depojado, voltando-se ao evento em si, em como os artistas se portaram, como o show estava organizado, enfim, o que presenciou como um todo. Pois então, a matéria e o show não deixaram a desejar...

Anônimo disse...

Assim... Primeiro, o tal do paulistano é muito reclamão... Se tem polícia reclama, se não tem reclama tb... Segundo, continuei sem ter noção do que é Mutantes... Mas não vou dizer aqui que a proposta foi ruim... Tom Zé, caralho, o homem do seu tempo... Bota pra fuder... Um gênio... E, claro, Nação Zumbi, mesmo com uma proposta acústica, foi bom... Porra, Chico, por que tu fosse tomar todas naquele dia, caralho???

Anônimo disse...

Po! Vc disse que tinha escrito um texto pequeno pro show dos Mutantes! Cara... ta grandao! E bonzao!

Beijos!
Gorda

PS: Maior bom falar com vc!

alemaun disse...

...andei...andei...andei...de ônibus, trem, metrô, ônibus, pé...
...andei muito...
de adamantina até sampa 600 km...mas o que anda lá...
Valew a pena! Fui para ver tom zé, um gênio, bem humorado, irônico! Seu cd novo, sobre o hedonismo dos jovens pos a prova...Pouca gente sabia as músicas...
Ele? Velho? Toca Forró?
hauhauhauha...Posso ouvir coisas desse tipo..
Eu, 21 anos, ele 70. Como diria renato russo: "Os bons morrem jovens!" eis um cara eterno...sempre jovem...revolucionário, subversivo...Jovem.

Tom zé...pra sempre...

R$ 170,00 - passagem de ida e volta
R$ 130,00 - hospedagem, rango, transporte.

As vezes é necessário juntar durante um tempo, ou fazer um empréstimo...não pense 2 vezes.


Adeus!

agatha disse...

CARA, JA FAZ UMA SEMANA E AINDA NÃO ACREDITO QUE FUI PRO "ESPETACULO DOS MUTANTES"


FOI SURREAL E INESQUECIVEL!!!!!!!!

A ZÉLIA ARRASOU

AMEI O SHOW DO TOM ZÉ FOI DEMAIS
VI ELE ENSAIANDO DE DIA, ELE É DE UMA SIMPATIA.....

VALEU A PENA TOMAR MUITO SOL E CHUVA....

VALEU A PENA!!!!!

R.Cruz disse...

Pelo menos ao meu redor a galera não curtiu tanto a apresentação do Tom Zé...isso é triste pra caramba (obs.: fora do brasil o cara é deus!)

Mutantes foi extraordinário, mas ainda tenho uma dúvida: Aniversário de Sampa e não tocam R. Augusta???!...De qualquer forma, foi perfeito!

Leandro Pires Garcia Nardini disse...

Assisti os dois ultimos shows..Tom Zé é um gênio e quem não acha ta por fora!
Mutantes..o que dizer do show da minha vida?
Sergio é um mala boçal? Por que? Por que falou umas verdades, em um pais que a tônica é a mediocridade?
Maior guitarrista do Brasil é obvio, é um dos melhores do mundo e comparo-o a Jimi Hendrix. E olha que o Hendrix não foi inventivo a ponto de gravar com a guitarra ligada num pedal de maquina de costura (bat macumba) Isso em 1968!
Arnaldo ta cantando sim (embora cansado,em londres seu vocal estava otimo, mas e dai?)e solou em ando meio desligado. Teclado desligado o cacete, e alias, se ele fosse pro palco com um banquinho só e ficasse olhando pro publico, ja mereceria ser aplaudido o show todo, só peloq ue ele ja fez na vida (sera que alguem aqui conhece isso?)
Enfim...nota 1.000.000

lilia disse...

CARA,FOI DE MAIS UM DOS MELHORES SKOWS Q EU JÁ FUI,O SHOW DO NAÇAO FOI INESQUECIVEL ATÉ CONSEGUI FALAR C/O TOCA OGAN...
VALEU A PENA FEITO MÓ ROLê,SAI ZONA LESTE SÓ PRA VER O ESSES FERAS.ME DIVETI PRA CARALHO C/A PERFOMANCE DO TOM ZÉ ELE É FODA.

Anônimo disse...

Rita Lee estava certa quando disse: Tô fora! Os Velhinhos tão afim de descolar uma grana pra Clinica Geriátriaca.Realmente é uma pena: Sergio pode ser ótimo guitarrista , mas perdeu o"Bonde da Estória" Os Mutantes eram o máximo quando eram Mutantes com a Rita...depois da saida dela começou a descida da ladeira.Melhor ficar trabalhando em estudio...Coitado do Arnaldo(isto não se faz), o cara não consegue mais tocar...Dinho precisa de um balão de Oxigênio(melhor ir trabalhar com Irmãzinho jornalista pretensioso). Enfiaram um monte de musicos(tecladista extra, percurssionista, guitarrista) pra segurar a onda. Zélia Duncan"Velha sapata"(desde a morte de Cassia Eller, quando a mesma oportunista substituiu esta num show em Copacabana após a morte da mesma)é Uma Oportunista ridícula(quanto ganhou do mescenas que bancou esta palhaçada). A Maioria do povo (iludido),não sabe o que tem por tras desta armação(que não vai dar em nada...), porque nem tem por que estar ai.Enfim " A volta dos que não foram". Ve lá se o Liminha-baixista(produtor premiado) foi se meter nesta furada, o que dizer da Rita. Ela não é boba nem nada de entrar nesta "Barca Furada", que ainda quer ser chamada de Mutantes!!! Francamente , guardem as boas lembranças do Passado.porque o Presente não existe mais...

BARATTA disse...

SIMPLESMENTE, PODER VER OS MAGOS QUE ESCUTO DESDE A MINHA ABORRECÊNCIA, MARCOU-ME COMO PESSOA E VALEU MINHA EXISTÊNCIA