25.2.07

Causos - De como você pode não perceber

De como você pode não perceber...
por Carol Bataier

É certo que a primeira vez que você viu aquele rostinho bonito nem pensou nesse mundo todo que havia por trás daquele corpo gostoso, daquele narizinho empinado.

Mal imaginou que a menina que dançava e ria pra todo mundo – ah!, uma exibida - poderia, numa tarde de sol, sair nua do chuveiro e pular direto no seu colo, molhada, abraçando com as pernas sua cintura, grudando a boca no seu pescoço entre mordidas e risadas pelo seu espanto, sua cara de bobo. Jamais pensaria, quando a viu sorrir e rir e sorrir novamente e o tempo todo, tão fácil, tão fútil, que ela poderia ser tão doce, tão meiga a ponto de te fazer sorrir também, assim, tão facilmente, só de olhar praqueles olhos que outrora você julgou maquiados demais, perdidos demais.

Você nunca imaginaria que agora passaria horas olhando aqueles mesmos olhos perdidos, ou acariciando seus cabelos enquanto tenta desvendar seus sonhos. De fato ela não fazia seu tipo. Não à primeira vista. Mas, também fato, que logo de cara te incomodou, senão você não teria reparado tanto em como ela segurava o copo ou conversava com os outros, e você não entendia bem o porque desse incômodo. Fez o possível pra ignorar, enquanto ela fazia o possível pra chamar atenção. Não só a sua, de todos, talvez, ela é assim mesmo. Ou era; porque agora ela é outra. Ainda guarda o mesmo sorriso, o mesmo jeito de dançar e de arrumar o cabelo quando sabe que tem alguém olhando. As roupas, talvez um pouco curtas demais, decotadas demais, também são as mesmas. E você pensa em como é possível alguém mudar tanto sem mudar nada. A menina é a mesma, mas agora você sabe que ela ama sol forte e chuva forte e que chora em despedidas, que tem medo de umas coisas bobas e enfrenta outras tantas tão mais perigosas. Que ela gosta de desenho animado e de filmes do Kubrick e ama a voz do Ney Matogrosso, sendo assim capaz de ouví-lo cantar Sangue Latino umas mil vezes seguidas. E então, de repente, você descobriu que adora aqueles olhos, aquela boca e aquelas mãos, ainda mais quando elas seguram bem forte nas suas, quase tentando atravessar seus ossos com as pontas dos dedos. E você mal imaginaria, naquele dia inebriado de cerveja e música, que hoje olharia pra ela com essa cara de bobo cada vez que ela te surpreende, e com essa cara de espanto (com uma pontinha de desespero) cada vez que ela diz, entre lágrimas, que não gosta mais de você. Porque agora você já não vive mais sem aquela voz rouca, aquelas músicas, aqueles livros, aqueles gritos, aqueles gestos, aquele jeito de dirigir o carro cantando e olhando o tempo todo pelo retrovisor. De repente a menina bonita que dançava te surpreendeu quando chorou num fim de tarde, quando cantou ou leu entre risos aquele trecho do Vinícius que diz que “eu sem você sou só desamor”; te surpreendeu por ser assim tão livre, tão capaz de abrir seu mundo pra um estranho chato como você . E você agora não se imagina mais fora desse universo tão diferente do seu, tão distante daquilo que você dizia querer... e tão aquilo que você precisava.

22.2.07

Virgínia Rosa – Fnac Paulista – 22/02/07

O perfume que roubam de ti

Era final de tarde quando entrei no Frans Café da Fnac Paulista. As mesas estavam cheias, e as cadeiras, que foram dispostas em frente ao palco (que fica ao lado do café), já tinham seus lugares, quase todos, ocupados. A luz do sol ainda batia pelos toldos de plástico do local, dispostos atrás de alguns computadores, quando sentei. No som, uma versão de “As rosas não falam”, de Cartola, em tango.

O lugar lotou, e muitos ficaram de pé. Logo reconheci os dois integrantes da banda de Virgínia Rosa - eram do grupo que tocou com Graça Cunha num show que fui na Casa das Rosas. O violonista e arranjador Dino Barione e o percussionista Douglas Alonso.

O palco estava armado de forma simples. Além da percussão e do violão, somente um copo de água instalado em uma mesinha de madeira pintada de preto. Com cinco minutos de atraso, o show começou. Sambas, basicamente, com arranjos bem estruturados e acompanhados da voz forte de Virgínia. As pessoas na platéia balançavam suavemente a cabeça com o batuque dos sambas

Muitos não conheciam quase nenhuma música das que estavam sendo apresentadas no palco, mas isso em nenhum momento foi problema. Como a cantora entoava as letras de forma clara, o público teve um prazer a mais. Descobria-se as músicas, assim como as poesias que traziam.

As pessoas na mesa continuavam a conversar normalmente. Quando Virgínia começou a cantar a música Sereno, percebi que o ambiente todo tinha, levemente, parado. As garçonetes, com olhares distantes e profundos, se esqueceram dos clientes para prestar atenção na música. Nas mesas, a maioria havia também parado de conversar para ver o que acontecia, enquanto alguns de seus amigos continuavam a falar sobre a vida, sem perceber que ninguém os ouvia.

A canção, escrita por Tito Pinheiro, era calma, serena como o próprio nome diz. De letra bonita.

Depois de apenas trinta e cinco minutos de show, tocaram a última música, e já saíam do palco quando o público pediu bis. Depois de perguntar ao povo da Fnac se podia, voltaram aos seus lugares e tocaram... As rosas não falam! Sim, aquele tango gostoso que ouvi logo que cheguei! Foram ovacionados por todos, e de lá Virgínia desceu para autografar cds.

Nota – 9

Custos:
Salgado – R$ 1,00
Transporte – Fui e voltei a pé

Set List:
1.Que bandeira – 2.Samba Torto – 3.Fado Morno – 4.Samba a dois – 5.Sereno – 6.Pressentimento – 7.Voltei – 8.Amado samba – Bis.As rosas não falam

18.2.07

De Corpo e Alma - CCSP - 15/02/07

A vida é assim mesmo

O dia estava esquisito, morno, mole e melancólico. Assim, indo a pé pelas ruas cheias de vento, cheguei ao Centro Cultural Vergueiro, às sete da noite, uma hora antes, para pegar o ingresso da sessão de cinema.

Ninguém por lá, sem fila. A bola da vez era uma peça de teatro, em promoção, a R$ 1,50. Ali sim, tinha fila, todo mundo sentado no chão esperando.

O filme que eu iria assistir faz parte do repertório do diretor americano Robert Altman, que morreu o ano passado aos 81 anos e dirigiu, entre outros, o inesquecível M.A.S.H.. O Centro Cultural Vergueiro começou a exibir os filmes de Altman, 19 ao todo, no dia 5 de fevereiro.

A sessão de De Corpo e Alma começou pontualmente às 20 horas e, quando terminou, a sensação mais forte era de que o filme não havia dramatizado o que interessava e também não dramatizara o que não interessava.

Parece complicado? Simples. Ali, mostrou-se essencial a relação entre a dançarina talentosa – mas que para sobreviver trabalha como garçonete em uma boate de balada - e o chef de cuisine. Porém, o romance entre os dois acontece de forma quase invisível, rápida, sem ruído ou conflitos marcantes, nos intervalos de um entorno multicolorido e semi glamuroso de uma companhia de dança – cujo trabalho ocupa a maior parte do filme.

A cena do Reveillon, quando Ry, a protagonista (Neve Campbell), chega em casa muito tarde e encontra o namorado dormindo, depois de ter arrumado uma mesa para os dois. Ela simplesmente deita-se ao lado dele no sofá e tudo bem. Tranqüilo, da vida.

Todas as situações que poderiam merecer, ou teriam chance de merecer, um ponto de tensão, seguem, quase ilesas. Altman deixa todas as deixas clichês se esvariem. Praticamente ninguém, por exemplo, interrompe o passo autoritário do diretor da Joffrey Ballet de Chicago, Alberto Antonelli (Malcolm McDowell, Laranja Mecânica) ele segue, também ileso. Sem drama. E da mesma forma, sem drama, são tratados os reveses do universo da dança, descontentamentos, rompimento de tendões, quedas...

Altman não coloca lente de aumento em nada, nem mesmo na apresentação dos espetáculos. E esse é o aspecto que mais chama atenção durante todo o filme.

De corpo e Alma vale para saber como o diretor desglamouriza o filme, do começo ao fim. O trabalho é competente principalmente porque se trata de um tema lotado de glamour

Nota 8

Custos
Fui e voltei a pé
Donuts – R$ 3,50

14.2.07

Arismar do Espírito Santo – Sesc Av. Paulista – 13/02/07

Cadê a Marreca?

Esperava na porta do camarim para que a produtora me trouxesse o set list com as músicas do show. Enquanto isso Arismar passeava calmamente, conversava com os músicos, tocava um pouco de violão. Faltavam vinte minutos para o show.

Figura grande, com andar calmo e pesado, nem parecia ser a estrela da noite. Caminhava de lá pra cá e conversava com quem o chamasse. Da fila, todos podiam vê-lo e muitos acenavam para ele. E o aceno era sempre retribuído. O músico estava vestido com calça e camiseta largas, ambas azuis.

Entramos todos para assistir ao show, e pouquíssimos lugares ficaram vagos. Durante a apresentação, não só os lugares vagos foram tomados como também as escadas.

Arismar do Espírito Santo é um dos melhores baixistas brasileiros, e do mundo também. Ao meu lado, falavam em espanhol. Atrás de mim, em inglês. Todos esperando para ver um bom show de música instrumental brasileira.

Pontualmente sete da noite, Arismar e a flautista Léa Freire entraram no palco. Depois de agradecer a presença do público, o músico sentou-se, pegou um violão de sete cordas e começou a tocar Luizinha.

Na segunda música, entrou seu filho, Thiago Espírito Santo – ótimo instrumentista que vem conquistando seu espaço no cenário musical –, o baterista Alex Buck e o saxofonista Vinicius Dorin. E o palco ganhou corpo. Interessante dessa música é que, logo no começo, ouvíamos um som de baixo, mas Thiago (foto ao lado), que estava com o instrumento, ainda não havia começado a tocar. O som vinha do violão de sete cordas de Arismar. Em suas mãos um violão pode se transformar facilmente em muitos instrumentos.

O show não começou com força total, mas foi esquentando. Na quarta música, Caiçara, pai e filho conversavam, e foi o momento em que o palco começou a pegar fogo. Enquanto Arismar continuava com seu violão de nilon, Thiago foi para um violão doze cordas. Diálogos incríveis, solos muito bons.

O Sesc gravava a apresentação, mas isso não interveio muito no desenrolar do show. Em nenhuma momento pararam para retomar uma música, ou as coisas que normalmente acontecem quando há gravações de shows.

Entrou o trompetista Daniel D´Alcantara que, com solos rápidos (por horas em exagero), deu novo fôlego às músicas. O set list era composto por temas que faziam parte do novo cd de Arismar, Foto de Satélite.

Uma das grandes e boas surpresas veio na música Tidinho. Arismar larga o violão e vai para a... bateria! Senta no banquinho da batera, que parece pequena perto dele, e dá um show. Viradas ótimas e riffs muito bem feitos.

Depois de cerca de uma hora e dez minutos de show, antes de começar a última música, Peixada da Lola, Thiago avisa Arismar: temos de refazer a música Cadê a Marreca. E Arismar avisa, sorridente, ao público: “Gente, vamos refazer a Marreca!!! Demais!”

No bis, Marreca. Melhor do que a primeira versão que havia sido tocada logo no começo do show. Saíram, mas o público, novamente aplaudindo de pé, fez com que voltassem.

Aí então a platéia não se conteve. Arismar pegou o baixo, e muitos comemoravam! As pessoas conhecem Arismar, principalmente, como baixista. E era a primeira vez na noite que ele e seu baixo se encontravam. Já havia tocado, naquela noite, violão de nilon, de aço, guitarra, bateria. Mas baixo, que é bom, nada.

Foi ridículo. O contrabaixo, nas mãos de Arismar, parecia brinquedo de criança. Fazia do baixo um violão, uma percussão, um baixo, uma guitarra. Acho que metade dos músicos presentes na platéia (havia muitos) ficou extremamente deprimida. Enquanto a outra metade não sabia onde colocar tanta felicidade.

Parecia platéia de show de jogo de futebol. As pessoas comemoravam trechos de solos, riam com as caras e bocas de Arismar. A banda ficou parada, assistindo, esperando a deixa para entrar. E ela não vinha. O baixista continuava a solar quando, de repente, deu a nota de entrada para a banda. Flauta, sax e trompete voaram para seus respectivos microfones, enquanto o publico caiu na gargalhada.

Nota – 9

Custos
Pizza – R$ 1,50
Transporte – fui e voltei a pé

Set List: Luizinha, O Filme, Cadê a Marreca, Caiçara, Tira a Mão, Vestido Longo, Vestido Longo, Varandão, Foto do Satélite, Tidinho, Serena, A Gueixa, Peixada da Lola

10.2.07

Velha Guarda da Camisa Verde e Branco – Fnac Paulista – 09/02/07

Samba com o manto sagrado

Vestidos de vermelho e branco, os Filhos de São Mateus acomodaram-se nas cadeiras dispostas em semi-círculo e começaram a tocar um samba. Eles são um grupo formado por jovens que acompanhariam a velha guarda. O péssimo som da Fnac atrapalhou, e atrapalhou muito. Quase não dava para entender o que os cantores diziam.

Depois da primeira música, chamaram aqueles a quem todos estavam lá para ver, a Velha Guarda da Camisa Verde e Branco. Vestidos com camisas brancas e coletes verdes, calças brancas e sapatos verde-brancos, os seis senhores espremeram-se no pequeno palco da Fnac e agradeceram ao público.

Não são palmeirenses, e seus produtores insistiram nesse quesito: “é uma escola de samba, não um time de futebol. E a maioria é são-paulina”. Apesar da decepção, continuei assistindo ao espetáculo que, se não primava pelo bom gosto futebolístico, primava pelo musical.

Canções daquelas de malandro, nas quais o sambista chega em casa altas horas da noite e tem que se ver com a patroa. Tristezas da vida, solidão e mágoas infindas. Exaltações da vida de pagode e cerveja, que leva em alegria a existência até o sol raiar. São o tipo de pessoas com quem você gostaria de estar num boteco por horas e horas a fio.

Enquanto os filhos de São Mateus tocavam os sambas, os vechi signori cantavam. A cada música um dos seis integrantes tomava as rédeas do microfone principal enquanto os outros ajudavam nos refrões. Ainda sim, o som abafado da casa nos deixava em grandes dificuldades para entender o que cantavam. Vale lembrar a banda não chegou a tempo para passar o som, então não se pode colocar toda a culpa na casa.

A Velha Guarda era formada por senhores negros vestidos de verde e branco. Todos, com disposição invejável, ensaiavam alguns passos de samba no pequeno palco, cantavam alto, puxavam palmas em todas as músicas, saiam do palco para ficar mais pertos do público. Quando o microfone de um deles parou de funcionar (fato que o deixou um tanto quando bravo, com razão), não teve galho. Levou no gogó a música e todos podiam ouví-lo, como se estivéssemos num bar.

Foram apenas quarenta minutos de apresentação para uma Fnac completamente lotada - tanto o espaço reservado aos shows quanto o café em frente. Ninguém sambou, pois o espaço não comportava, mas todos saíram de lá com um sorriso no rosto. Algo de mágico naqueles seis senhores vestidos com as cores do manto sagrado do futebol.

Repertório: Hino da Velha Guarda, Canto pra viver, baiana da Ribeira, Nata do Samba, Minha Preta, Quem censurar, Se fosse pra chorar, Sampa só samba, Se eu chorar, Quando, Lamento Negro, pot-pourri (sambas de enredo)

Integrantes da Velha Guarda: Dadinho, Nelson Primo, Airton Santa Maria, Mário Luz, Hailtinho, Paulo Henrique
Integrantes do Filhos de São Mateus: Emerson (cavaco), Leandro (Violão), Junior Alemão (repique), Tiago (pandeiro) e Hugo (surdo)
Produtores: Carmo Lima, Fernanda Thomaz

Custos:
Soda Italiana: R$ 3,10
Pão de queijo (cestinha): R$ 2,40
Transporte: fui e voltei a pé
Total: R$ 5,50

Nota: 8

6.2.07

Gregório Gruber – Espaço Cultural Citigroup – 06/02/07

São Paulo das doces lembranças

São Paulo fosca, de paixões infantis e sonhos distantes. Com cores esfumaçadas, Gregório Gruber traça uma cidade que faz a imaginação e a memória se cruzarem. Para quem vive nessa metrópole, as cenas têm um impacto ainda maior: Masp, São Bento, Gasômetro (ao lado), centro, tudo é inspiração, tudo é cenário.

Uma criança desce de bicicleta uma rua semideserta. Os pequenos sobrados com suas janelas abertas mostrando o televisor ligado revelam identidades semelhantes de famílias com histórias distintas. E parecidas.

São Paulo de Gruber é a cidade que nós pensamos quando estamos fora dela. Aquela cidade gostosa, cuja lembrança nos acalma. O quadro que mostra a Avenida Paulista relaxa os olhos de quem vive ou viveu aqui por anos e anos.

O pintor usa traços definidos que, misturados com cores foscas (que lembram um pouco as do impressionismo), resultam em um bom trabalho. Uma espécie de sonho daquela São Paulo que ficou guardada em nossas lembranças infantis – uma cidade boa e doce.

Quando se põe a pintar quadros com temas não urbanos, Gruber também impressiona. No “Reserva em Turquesa” (ao lado), constrói os galhos da árvore com filetes de tinta verde, como se eles tivessem escorrido por conta própria na tela.

Outra obra que vale a pena ser vista com mais cuidado é Perdizes, um painel que mostra o bairro e, ao fundo, o Pico do Jaraguá. A vista é a de um apartamento, no final de tarde. As cores fazem o observador não ter certeza se Gruber tenta relatar um sonho ou uma daqueles finais de tarde gostosos passados à janela de um apartamento. Os dois, muito provavelmente.

Saí da exposição leve, e voltei para minha São Paulo. Bem parecida, por sinal, com a cidade retratada.

Local: Espaço Cultural Citigroup (Av. Paulista, 1.111)

Custos:
Salgado: R$ 1,50
Transporte: fui e voltei a pé

Nota: 9

Qual a sua impressão sobre a cidade de São Paulo ou sobre outra cidade? Comente abaixo!

5.2.07

Adaptação – CCSP – 04/02/07

Como escrever um drama sobre uma flor

Os lugares da pequena e agradável sala de cinema do Centro Cultural Vergueiro (CCSP) estavam tomados. Nem o show da banda Golpe de Estado (também no CCSP) nem os jogos do Paulistão deste domingo conseguiram esvaziar a sala - e seis e cinco o filme começou.

Adaptação é do mesmo diretor, Spike Jonze, e do mesmo roteirista, Charlie Kaufman, de Quero Ser John Malkovich. E é exatamente com um um suposto making of deste filme que Jonze abre a primeira cena de Adaptação. A câmera mostra a equipe de trabalho, e focaliza o tímido roteirista, quase invisível. Nicolas Cage.

A atuação de Cage é impecável. Parece não ser ele, e sim um outro ator, já que não reconhecemos na personagem Charlie Kaufman (sim, um hortônimo do roteirista) nenhum traço dos outros papéis anteriormente interpretados pelo ator. Além de Charlie, Cage interpreta Donald, seu irmão gêmeo.

Um começo de filme europeu, daqueles fantásticos e com diálogos que nos levam a pensar sobre muitos assuntos de formas variadas; um final de filme americano, com todos os temperos dos hollywoodianos bons.

Adaptar-se é não morrer, é poder mudar e seguir em diante. “Adaptação é um processo profundo”, segundo o próprio filme. “Mudar não é uma escolha”.

Charlie é um roteirista reconhecidamente bom, contratado para transformar o livro de uma jornalista do The New Yorker, Suzie (Meryl Streep), em roteiro de cinema. O livro é sobre orquídeas - e sobre um horticultor que entende bastante sobre o assunto.

Bloqueios mentais atrapalham Charlie a escrever o roteiro sobre o tema que pensa ser o principal do livro, as flores. A partir disso, com a ajuda de seu irmão, vai sofrendo o processo de mutação ao qual o filme se propõe.

No decorrer da ação, as duas personagens principais, Charlie e Suzie, vão se adaptando, passando pelo longo e profundo processo. Sem volta, claro.

É um filme para se ter na estante, assistir feliz, triste, cansado, animado. Sempre haverá uma nova visão, algo que não foi percebido. Ainda mais por ser um daqueles filmes com falas fantásticas, que demoram um tempo para ser decantadas. Um dos melhores filmes que já vi, com certeza.

Custos:
Sanduíche: R$ 1,20
Transporte: fui e voltei a pé

Nota: 10

3.2.07

Cinema do Roy - Oscar e Sundance

Oscar e Sundance
por Roy Frenkiel

A maior festa do cinema comercial está a menos de dois meses daqui. A entrega do Oscar, esperada ansiosamente pelos fanáticos, conhecedores e apreciadores da arte cinematográfica já tem seu processo iniciado. Os melhores filmes já estão nomeados. Mas, nos Estados Unidos, em uma cidade nem tão distante do local da entrega do Oscar, Los Angeles, também existe um outro festival, um dos mais importantes do cinema independente, provavelmente perdendo em popularidade apenas para o Cannés.

Trata-se do Sundance Film Festival, realizado em Park City, um dos festivais de maior audiência nacional, mas que há alguns anos não tinha nem metade do tamanho atual. Com o mesmo pretexto do festival de Cannés, o Sundance traz à tona diretores, escritores, produtores, atores e coreografistas do cinema independente de grande qualidade. Dezenas ou centenas de filmes foram escolhidos entre dezenas de milhares, mas isto faz parte da inovação do cinema independente no geral. Afinal, há vinte anos entrar no Sundance significava não fazer parte das uniões de Hollywood, e quase ninguém se arriscava. Em comparação, atualmente há outros festivais com o mesmo propósito do Sundance. Em um deles, por exemplo, apenas entra quem obtiver uma carta de rejeição do próprio. Todos os festivais, ou quase todos, permanecem constantemente lotados. O motivo? A popularidade dos filmes alternativos tem mudado a face mundial do cinema.

Isso se deve à falta de originalidade iminente, expressa nos últimos anos em Hollywood, enquanto uma boa parte dos melhores filmes era apenas uma reconstrução de obras já feitas no passado. A moda seguiu, cresceu, e, aparentemente, encheu. Um outro quesito é a transformação das gerações de cinéfilos, procurando algo que desafie suas mentes, que proponha uma realidade fictícia menos superficial. O cinema internacional, com o desenvolvimento da globalização cibernética, também contribuiu para o fenômeno. Atualmente, ser um diretor de filmes independentes gera créditos similares aos dos diretores hollywoodianos. No Sundance, por exemplo, o mesmo estilo independente mudou, e cineastas procuram expressar menos suas próprias perspectivas de suas herméticas vidas, para expressar assuntos de importância global.

Há alguns filmes importantes para o Sundance, a maioria inéditos, e confesso que não os assisti. Assisti alguns dos ganhadores dos anos passados, como “Land of Plenty” (Wim Wenders, 2004), com a atuação da quase famosa Michelle Williams, e um elenco humilde. Trata-se de uma missionária, acostumada com os conflitos da Faixa de Gaza e a fronteira isralense, que volta para os Estados Unidos em busca de seu tio, e percebe que, enquanto na Faixa de Gaza critica-se os Estados Unidos pelo capitalismo cruel, pela ostenção de valores monetários e pela destruição dos valores alheios, os Estados Unidos em realidade se encontra em crises financeiras e sociais intensas, mas ignoradas em prol do que ocorre no Iraque. O filme não é dos melhores, mas definitivamente toca em pontos sensíveis e essenciais. A quem encontrar, recomendo.

Para o Oscar, a situação não é das piores este ano, pelo mesmo efeito, a necessidade de criar alternativas dentro do cinema comercial. “Babel,” por exemplo, de Alejandro Gonzáles Iñárritu (diretor de “Amores Perros,” 2005, um dos melhores filmes de humor negro que já assisti), é o favorito ao prêmio de melhor filme, ao lado de “Little Miss Sunshine” (2006, Jonathan Dayton e Valerie Faris), “The Departed” (Martin Scorsese, 2006), “Letters from Iwo Jima” (do veterano Clint Eastwood, 2006) e “The Queen” (Stephen Frears, 2006). No caso de “Little Miss Sunshine,” já se testemunha a mudança do ângulo escolhido para entreter uma audiência. O filme, de modo geral, trata da má sorte, da disfunção familiar e conceitos sociais descartáveis, bem como do ser humano, lidando com as dificuldades absurdas do cotidiano. Talvez os filmes de Scorsese, de Eastwood e de Frears, não tratem do ângulo mais original possível. Mesmo assim, certamente o fazem Alejandro Gonzáles em “Babel” (cujo tema prefiro deixar no ar) e os diretores de “Little Miss Sunshine”. Vale a pena assistir.

Quanto ao cinema, fiquem espertos: O mundo está mudando. O cinema faz parte do mundo. Logo, o cinema está mudando.

Aos abrax,

Roy Frenkiel

Eletrobatucada – Fnac Paulista – 02/02/07

Samba roots

O palco preparado para o show da Banda Eletrobatucada era o típico de uma roda de samba. Além de percussões e uma pequena bateria, duas mesas com porções de amendoim, balde de cerveja, pandeiros e letras de música.

Vinte cadeiras estavam dispostas para o público, e cerca de metade já estava tomada quando eu cheguei. No café em frente ao palco, bastante movimento.

Sete e dez a banda se sentou; um violão, um cavaquinho, dois percussionistas e dois cantores. Logo de cara o pessoal da Eletrobatucada começou a tocar Brasil Pandeiro, um dos clássicos do samba.

As vozes do conjunto, uma masculina e outra feminina, desafinavam vez ou outra. Apesar disso, era gostoso ouvir cantá-los aquelas músicas num ambiente propício a um bom samba.

A banda é formada por bons músicos, mas falta ensaio. Erravam algumas entradas e saídas de canções, e tudo era meio mambembe, meio jazz. Mas ia-se levando o show na maior onda, com um repertório bem tradicional.

Estava sentado na primeira cadeira, colada aos músicos. Decidi sair e ir ao café em frente para conseguir uma segunda visão do show.

Logo que levantei fiquei surpreso: muitas pessoas estavam de pé vendo o show - pararam para ouvir aquele som que os agradou enquanto viam livros e afins. Garçons sambavam enquanto os casais assistiam abraçados. Tanto quem estava na cadeira quanto quem estava de pé não conseguia ficar totalmente parado. Ou mexia o pé, ou a cabeça. Alguma parte do corpo tinha de sambar.

Sentei na única mesa vaga do café para assistir ao resto do show. Um rapaz, em inglês, pediu para sentar em um dos lugares vagos da mesa. Ele veio da Suécia fazer um curso no Brasil. Estava passeando pela loja quando ouviu aquele som. Achou ótimo e veio ver o que era. Nunca tinha escutado samba na vida, e adorou.

Realmente, Eletrobatucada é a medida ideal para quem quer conhecer o samba. No repertório, somente os sambas mais conhecidos tocados de forma tradicional. Por vez e outra algum som eletrônico, mas que não altera muito o resultado final.

A reação do público, que foi pouco a pouco tomando o espaço com gente que passava, diz bastante sobre a banda. Uma bom conjunto, que tem todo o clima de uma roda de samba e toca as músicas que todos gostam de ouvir.

Set List: Brasil Pandeiro, Argumento, Coração Leviano, Só tinha de ser com você, Bala com bala, Mas que nada, Brasileirinho (instrumental), Piano na Mangueira, Lama, Na tonga da mironga, Berimbau, Timoneiro, Coqueiro Verde, Mestre Sala dos Mares, Alegria, Ouro e madeira, Água de beber, o morro não tem vez.

Custos – R$ 0,00
Transporte – fui e voltei a pé

Nota – 7,5

29.1.07

Nação Zumbi, Tom Zé e Mutantes - Praça da Independência - 25/01/07


Um dia no Parque
Nação Zumbi, Tom Zé e Mutantes


Assim que desci do ônibus, começou a chover. Apenas uma grade me separava do Parque da Independência, mas ainda estava longe da entrada. Enquanto isso, conversava com Willian, um senhor de meia idade que veio comigo no ônibus. Ele ia declamando suas poesias enquanto tentávamos nos abrigar da chuva. Não que aquilo preocupasse muito.

Com sua garrafa plástica de vinho debaixo do braço, Willian andava desviando das pessoas que vinham em direção contrária, e ficou bem animado quando lhe disse que a primeira banda a tocar seria Nação Zumbi. Só sabia que os Mutantes tocariam. Quando falei em Tom Zé, não pareceu se animar tanto, mas Nação Zumbi... pelo visto gostava mais deste do que Mutantes.

Nos despedimos e fiquei abrigado em uma barraquinha de milho. O cheiro, aquele infeliz e delicioso cheiro de milho quentinho me obrigou a comê-lo. Fiz. Acabei de comer e eram quatro e meia da tarde. O show, programado para começar quatro horas, ainda nem dava sinais de vida. A chuva só fazia aumentar. Vi então uma amiga de faculdade e fui conversar com ela. Ela me emprestou um guarda-chuva reserva e me apresentou uma amiga bonita.

Conversamos um pouco sobre coisas comuns e decidimos tentar entrar. Era uma tarefa árdua, já que a polícia havia barrado a passagem e só deixava as pessoas entrarem a conta-gotas. Depois de alguns pontapés e cotoveladas, entramos. Nessa hora, faltando dez minutos pras cinco, já começava a parar de chover.

O segurança me revistou e pediu pra verificar minha mochila. Disse que não podia entrar com a garrafa de água, já que a Sabesp tinha instalado alguns postos de água grátis dentro do parque. Dei minha garrafa aos policiais, que, diga-se de passagem, culpa nenhuma têm por essa ordem sem nexo, apenas estão lá, suando e sendo odiados. Não preciso nem dizer que não vimos nenhum posto de água, e não fosse pelas minhas amigas entrarem com garrafas escondidas no fundo de suas malas, morreríamos de sede. Lá dentro, vendedores desfilavam com garrafas de vinho a preços “módicos”.

Atrás do palco a linda estátua da independência, mesmo coberta em grande parte pelo palco, não perdia sua imponência. Olhando para trás, do outro lado da rua, o Museu da Independência. É, sem dúvida, um dos lugares mais lindos de São Paulo, e um local perfeito para um daqueles festivais antológicos que os magnatas sempre sonham em realizar.

Nação Zumbi
Enquanto andávamos até o palco, o som começou a rolar. Um som que misturava um rock daqueles bons e pesados com percussões brasileiras, de maracatu. Quem ouve entende porque o estilo é chamado de Maracatu Atômico.

Muitas pessoas estavam lá só pra ouví-los, e foram embora quando acabou. Quem foi pra ver Mutantes ou Tom Zé, em geral, não se animou muito. O pessoal que estava na frente e havia enfrentado a chuva com coragem pulava e se esbaldava.

Uma mistura de sons novos com rits da época de Chico Science, um dos mais importantes músicos brasileiros do último século. Uma banda que continuou mesmo com a morte de seu criador.

De onde estava, um pouco pra frente da metade do parque, via alguns rostos dançantes e alguns chateados. Enquanto uns curtiam, outros só queriam que acabasse.

E acabou. Sem bis, a banda deixou o palco que começou a se preparar para seu próximo episódio: aquele do Tom Zé.

Tom Zé
Vestido de vitrola, entrou aquele que era underground entre os perseguidos pela ditadura. Aquele que em plena repressão militar - a qualquer um que respirasse liberdade - fez um disco cuja capa, que parece ser um olho, nada mais é do que um ânus com uma bola de gude no meio.

Este ser, até hoje novo e doido, começou a cantar. Atrás do palco, Zélia Duncan só vendo, curtindo, admirando Tom Zé.

Como um moleque, chegou pulando. Ensinava frases ao público, que as repetia, rindo. Parava as músicas no meio para ensinar os refrões. Novamente, o público mais perto do palco foi o que mais curtiu. Aquelas pessoas com cara de caneca (sabe aquela cara que você faz quando ganha uma caneca?) que não curtiram o show anterior também não manifestavam outro humor aqui.

Mas, com certeza, quem mais aproveitava o show era Tom Zé. Mais do que qualquer outro. Como disse Marcelo Rubens Paiva em Feliz Ano Velho, esse artista é um dos que ainda não foi integralmente reconhecido. Assim como Hermeto Paschoal. É o mal daqueles que inovam musicalmente; são taxados de esquisitos e por isso colocados em uma prateleira à parte.

O parque já estava totalmente tomado então. Andar era tarefa para os bons, mas mesmo assim era fácil encontrar amigos. Encontrei alguns, que me davam diferentes panoramas e opiniões sobre os shows. Depois que voltei pra casa, descobri tantos outros que também foram e não encontrei.

Então eu e as duas meninas que estavam comigo fomos em nossa longa migração para o mais perto do palco que conseguimos. Afinal, em pouco tempo começaria o show dos Mutantes. Um Mutantes sem Rita Lee, é verdade, mas Mutantes.

Os Mutantes
Conseguimos ficar relativamente perto. O suficiente para ver sua chegada triunfal. Vi aqueles antológicos músicos entrarem em roupas que condiziam com o lugar. Sérgio Dias estava vestido de Dom Pedro, Zélia Duncan de donzela. Segundo estimativas da polícia militar, cerca de 50 mil pessoas estavam lá para conferir o show.

Minha fidelidade à Rita Lee foi então quebrada. Apesar de fã dos Mutantes, e de ser um daqueles que não são muito adeptos a tais mudanças, tive de me render: nunca vi a banda como nesse dia. Zélia Duncan parece ter nascido para cantar com Sérgio Dias e Cia.

A cantora não conseguia tirar o sorriso do rosto. Mas não era aqueles sorrisos de pagodeiro em clipe da MTV não, era um sorriso de criança, como quem não se agüenta de tão feliz. Os outros Mutantes, com cara blasé, curtiam igualmente.

Um som inteiro, completo. Os fãs de Mutantes aguçavam a visão para ver seus ídolos, pulavam, gritavam. Parafraseando uma amiga, é como se Raul Seixas voltasse e fizesse um show. De graça.

Eles são a mais perfeita tradução da cidade de São Paulo, como já cantou Caetano. Uma cidade deste tamanho e que tem tão poucos referenciais na música. A única banda paulistana da noite. Cantaram parabéns pra você, já que era aniversário de Sampa, e todos acompanharam.

Uma mescla de Yes com Beatles, variando rifs de guitarra com teclados viajantes, os Mutantes tocaram e o público agradeceu. Mutantes clássico, como não poderia ser diferente. Mutantes para se ouvir três vezes. Principalmente quando chamaram Tom Zé para cantar uma música.

As músicas que tocaram foram as tradicionais: Ando meio desligado, Balada de um louco, Minha menina, Panis et Circensis, entre outras. Se faltasse alguma dessas, muitos fãs voltariam para casa desolados.

Para olhos e ouvidos atentos, foi um show para por no currículo. Valeu cada gota de chuva.

Nota
Nação Zumbi – 8,5
Tom Zé – 9
Mutantes – 9,5

Custos
Bolacha e água – R$ 2,50 (sim, a água que dei quase inteira)
Milho – R$ 1,00
Ônibus – R$ 4,60 (férias não tem bilhete único)

Total - R$ 8,10

Você estava lá? Deixe um comentário descrevendo o que você viu, qual sua opinião sobre os shows, críticas, apelos ou etcéteras!

19.1.07

De Puro Guapos – Fnac Av. Paulista – 18/01/2006

De puro talento


Uma pessoa corajosa, de fibra, que enfrenta e vence seus problemas e adversidades. Este é o significado da expressão “De Puro Guapos”, explicada assim pelo único argentino e líder do grupo, Martín Mirol. Trata-se de uma orquestra típica de tango, nascida em São Paulo, e que está lançando seu auto-intitulado primeiro CD, ao vivo, gravado no espaço Cachuera, na capital paulista. Superando as barreiras do preconceito e da rivalidade de culturas gerada ao longo dos anos entre Brasil e Argentina, os oito músicos têm conquistado seu espaço, apresentando-se também no Rio de Janeiro e Santa Catarina.


Aguardados por um público heterogêneo e surpreendentemente numeroso, entraram no pequeno palco da Fnac pontualmente. Após os devidos ajustes para que coubessem perfeitamente naquele pequeno espaço e distribuíssem o som da melhor forma possível, iniciaram a apresentação. Com três violinos, contrabaixo, violoncelo, clarinete, piano e o instrumento clássico do tango, o bandoneón, logo foi possível perceber que o som era denso e completo. Guiados na maioria das músicas pelo piano e o bandoneón, o entrosamento entre todos era admirável e torna-se o principal atrativo da música do De Puro Guapos.

Porém, os valores individuais também tiveram chances de aparecer e não se mostraram menos ricos e completos. O pianista Paulo Bricoli, impressionava a todos com uma técnica e velocidade singulares, mesmo tendo que usar um teclado por causa do espaço oferecido. Como é a base principal de algumas canções, revela-se fundamental a cada trecho de tango orquestrado. Outro destaque é Martín Mirol, responsável pelos arranjos e pelo bandoneón. Instrumento este, que foi apresentado pelo próprio músico como “um tipo de sanfona que está para o tango, como a guitarra está para o rock americano.”. Sendo assim, Martín é um ótimo solista, pois destaca-se facilmente em diversas canções, criando efeitos e sons impressionantes, com uma eficiente agilidade nos dedos e até muita presença de palco. É ele também quem conversa com o público nos intervalos das canções. Apesar do “portuñol”, consegue arrancar risos do público, acrescentar importantes informações e refletir uma simpatia evidente no rosto de todos integrantes.
“9 de Julio”, Quejas de Bandoneón” e “Libertango” foram as músicas mais aplaudidas e que mais chamaram atenção ao vivo. Com um repertório baseado no classicismo do século XX, o que chega a cansar em alguns momentos, De Puro Guapos liberta-se sutilmente desta característica quando toca a composição de Astor Piazzola (“Libertango”). É um tango modificado, com novas influências, mas que não deixa de ser interessante em nenhum momento. Requer uma técnica diferente, que é apresentada competentemente pela orquestra e só enriquece o show. No fim, aplausos fortes e sinceros, sorrisos no rosto e uma sensação clara de que uma pequena aula de música foi dada naqueles poucos minutos.


Custos:
R$ 0,00

Nota - 9

15.1.07

Ginger e Fred – CCSP – 14/01/06

Ginger e Fred


Saí de casa e não muito tempo depois estava no CCSP (antigo Centro Cultural Vergueiro). Sem filas peguei meu ingresso para a sessão de cinema das 6 e fui esperar na lanchonete do lugar. Cinco e meia fui pra fila (que já tinha bastante gente) e seis em ponto abriram as portas. Uma sala de cinema relativamente pequena, mas confortável.

Colocaram o DVD do filme em questão, Ginger e Fred, e, após algumas tentativas frustradas, conseguiram dar “play” no filme.

Obra de Federico Fellini, Ginger e Fred conta a história uma dupla que fazia um número imitando Ginger Rogers e Fred Astaire, dois grandes dançarinos de Hollywood, nos anos quarenta. Trinta anos depois se reencontram para participar de um programa de televisão e dançar juntos novamente.

O mais brega do mundo dos anos oitenta está lá. Desde os cabelos, as luzes, as propagandas, as roupas. Tudo nos remete ao que de pior teve o gosto daquela década. E é exatamente com esse pano de fundo que se reencontram Pippo e Amelia, os personagens principais.

A atuação de Marcello Mastroianni é de cair o queixo. O ator, já mais velho, valeria o filme por si só. Seu personagem é um bailarino que dormia com todas as mulheres, menos Amelia. E que ficou muito abatido quando a dupla acabou. Em meio a todo aquele mundo oitentista, uma volta ao passado no reencontro dos dois naquele programa de televisão.

No cinema, parecia que víamos um jogo de futebol na Copa do Mundo. As pessoas riam, choravam, torciam. Ao meu lado, uma menina a certa altura do filme não se agüentou: “mas o que ele vai fazer? O que ele vai fazer? Não!”. Divertido, pois o cinema ficou, por instantes, italiano.

Engraçado que as personagens principais, apesar de estarem vendo aquela Roma que se mostra decadente, reanimam-se nas lembranças e nos olhares daqueles passos que davam quando imitavam a dupla hollywoodiana. Era em outra Roma que estavam enquanto esperavam entrar em cena.

É um filme para alugar e ver uma, duas vezes. Para quem gosta de comédia italiana, com toques de beleza e sutileza, uma boa pedida. Fiquei com bastante curiosidade de ver mais e mais Fellini, e confesso que tentarei ver mais dessa Mostra Fellini que está rolando no CCSP. Valeu a pena.

Custos:
Coca-Cola: R$ 2,00
Transporte: Fui e voltei a pé
Total: R$ 2,00

Nota: 9,5

9.1.07

Pedra Branca – Sesc Av. Paulista – 09/01/07

Uma tarde em Itapoã

Sente, relaxe, pegue um copo de vinho. Pedra Branca não é um som para se tentar compreender; não de primeira. É um som para ouvir e viajar, vagar por aí.

Cheguei ao Sesc Paulista lá pelas seis e vinte, vinte minutos depois dos ingressos começarem a ser distribuídos. E tinham acabado de acabar. Como havia muita gente sem entradas, o pessoal da casa decidiu colocar mais trinta cadeiras no teatro e distribuir mais trinta ingressos. Consegui o meu.

Uma formação bem inusitada de banda, com instrumentos indianos, percussões das mais variadas, sintetizadores e outros apetrechos eletrônicos, clarinete e flauta transversal, flautas de bambu, baixo elétrico. Até um baixo acústico que nem chegou a ser usado.

A primeira música já deu a entender qual seria o tom da noite. Num estilo bem minimalista, os sons iam se somando na música aos poucos, elementos surgiam de leve e ficavam. Por vezes, só vinham falavam algo e iam embora.

Pedra Branca, em Tupi, quer dizer Itapuã. E é exatamente às tribos indígenas brasileiras que nos leva em primeiro lugar a sonoridade da banda. O toque de alaúde nos mandava, hora ou outra, para o mundo árabe, mas a percussão não deixava a passagem ser completa.

Depois da segunda música, uma pausa. O computador tinha dado problema, e todos correram para acudir. Uns vinte minutos de parada, o público dispersou um pouco. Voltaram a tocar, com a mesma energia de antes.

Todos os músicos da banda, em palco, aparentavam calma. A música em si já leva a esse estado de espírito, como se estivéssemos ouvindo mais a natureza do que uma banda em si. De fundo, enquanto a música rolava, cantorias indígenas, que continuavam quando as músicas acabavam. Esse vai e vem, as músicas que se assemelhavam umas às outras, chegava a confundir o público, que nunca sabia direito a hora de aplaudir.

Para ouvidos não preparados para esse tipo de som, como, confesso, estava o meu, Pedra Branca pode parecer um pouco cansativo, repetitivo. Mas, mesmo assim, não há como deixar de se render à proposta da banda, sua música. É algo que agrada e faz a imaginação viajar o tempo todo.

Banda:
Luciano Sallum (sitar, alaúde, samissen e armesk)
Aquiles Ghirelli (tabla, didgeridoo e voz)
João Ciriaco (DJ)
Porto Rico (percussão)
Ana Eliza (flauta e sax)
San (baixo)

Custos:
Transporte - R$0,00 (fui e voltei a pé)
Salgados - R$2,00
Café - R$0,50
total - R$2,50

Nota - 8

8.1.07

Novidade!!!

Novo colunista na área!

Roy Frenkiel é o mais novo colunista do Arte Free! Direto da terra do Tio Sam, Roy traz para nós análises precisas e afiadas sobre cinema, seja alternativo ou não. Já no primeiro texto de sua coluna, Cinema do Roy, Roy desce a lenha em Mel Gibson, diretor de A paixão de Cristo e Apocalypto.

Roy é editor do já consagrado Reação Cultural, revista eletrônica em formato de blog que vem crescendo consideravelmente na rede.

Para conferir seu primeiro texto para o Arte Free, Os Gênios do Crime, clique aqui!

Cinema do Roy - Os Gênios do Crime

Os Gênios do Crime
Por Roy Frenkiel

Um dos primeiros propósitos do cinema pós-edição, foi o da propaganda. Uma das primeiras e mais famosas propagandas massivas eficazes realizada, foi feita às ordens de Hitler, contra O Judeu, o ‘üntermentch’, ‘subumano’ responsável quase exclusivo dos males da Alemanha. Muitos de meus amigos próximos, judeus como eu, testemunharam posteriormente que a propaganda funcionaria, caso não conhecessem a realidade. O cinema, portanto, há décadas, já provou-se método não só eficaz, mas provavelmente a principal ferramenta do marketing de idéias, se não também de produtos e, eventualmente, da história.

Gibson procurou fazer exatamente isto quando lançou ‘A Paixão de Cristo’ em 2004, causando uma polêmica que, para ele e seus associados, serviu de sólida base a sólidos lucros. Independente da trama e da veracidade bíblica de sua narrativa, a direção e intenção do diretor espelham-se justamente na violência que, mesmo tendo ocorrido conforme a narrativa do filme, expressa-se com o intuito de causar desgosto, asco e repúdio aos olhos do espectador. Isso é eminente nas salas de cinema locais, onde o público ‘conversa’ com a gigantesca tela e a imagem do refletor, aplaudindo e vaiando conforme a causada impressão. O sangue do público lateja, verdeja insanamente, e a ‘torcida’ inicia um aquecimento que pode, muito bem, tornar-se concreto. Mel Gibson poderia perfeitamente inspirar o amor a Jesus com seu filme, amor religioso por seu sacrifício carnal em nome da raça humana, não apenas dos gregos ou dos troianos, mas de toda ela como uma só. Preferiu, no entanto, mostrar a tortura de sua pele, e um inimigo em comum, o traidor, o demoníaco Judas. A mensagem, é claro, torna-se mesclada à brilhante cinematografia, escolha de imagens, fala do ‘original’ Aramaico (hollywoodiano), e uma delineada trama profissionalmente selecionada para impressionar o público. Em outras palavras, a polêmica levou o público ao cinema, que com seu desgosto, mas inegável (e inexplicável, alguns clamam) prazer pelo bom filme, apenas atraiu mais público, e a mensagem, seja ela qual fosse, qual interpretasse o espectador, foi amplamente distribuída.

Agora, novamente, Gibson procura o mesmo ângulo com ‘Apocalypto’, lançado ao fim do ano passado, no misto da raiva do público à imagem do ator-diretor australiano-nova-iorquino. Aos desavisados, Mel conseguiu a proeza de ser preso dirigindo bêbado em Los Angeles, e enquanto era detido, insultou o ‘judeu, responsável exclusivo dos males dos Estados Unidos’. O filme conta a estória – e note-se o ‘e’ de ‘es’tória – da decadência da civilização Maya quando, em 1517, já sofriam pelo conflito entre 16 tribos ao controle total da região, enquanto muitos dos ex-habitantes das grandes cidades, procuravam a paz nas florestas regionais. Aqui, mais uma vez, o diretor escolhe a narrativa da violência, mesclada à sua genialidade cinematográfica inegável, para expressar um ponto que não se esconde, porque muito pelo contrário, aparece na frase de abertura do filme: ‘Uma grande civilização não se conquista por fora sem que antes se destrúa por dentro’, de Will Durant. Uso ‘estória’ não porque a película mente ou desmente a ‘história’, nem por sua fabricação, porque se muito, foi meramente editada, não modificada da crua e nua realidade. Uso-a, isto sim, justo pela injusta edição da história de uma civilização tão maior do que no momento de sua decadência, esta estendida por décadas sem fim, até a chegada verdadeiramente apocalíptica dos europeus colonizadores, vindos de uma Renascença marcada por Inquisições, Cruzadas, e total injustiça e opressão sociais. Por mais verídica, realista e perfeitamente elaborada a trama, Gibson escolheu filmá-la de modo a inspirar a torcida pela morte de índios, e ainda, quem sabe, o alívio do público quando, no horizonte, se aproximavam as caravelas de Hernández de Córdoba, capitão dos exploradores das terras Maya. Para quem conhece as consequências dessa chegada, não há possível alívio, e sim a consciência de que aquilo, e não a decadência do Império Maya, significou o fim de uma grande civilização.

Nada justifica a barbárie dos índios opressores, e ninguém pode descartar a realidade de que, entre eles e muitas de suas tribos, houve muitas guerras, muitas delas de extrema violência e crueldade, se em nome de sacrificios supersticiosos ou disputando territórios. Contudo, o genocídio ocasionado pelos europeus, de homens, mulheres, crianças e idosos, nada se compara ao primitivismo destas ditas tribos em suas batalhas. Mesmo que houvesse genocídio entre os índios, nenhuma tribo, nem as mais cruéis, procurava aniquilar crianças propositalmente, como fizeram e ainda fazem os pertencentes à Grande Civilização Ocidental. Em nenhuma de suas guerras houve a menor intenção de aniquilar toda uma raça, mesmo porque a guerra era, ou assim se pode afirmar paralelamente, ‘civil’, entre os Mayas, em seu próprio âmago. Aniquilar toda uma raça, como ainda se diz e se cochicha pelos ouvidos dos racistas, homofóbicos, anti-semitas e misógenos, significaria para os Mayas, naquela época, exterminar os próprios Mayas. Gibson, com a frase de Durant, quis expressar que as grandes civilizações sempre foram iguais, e que os europeus apenas lograram a conquista pela desunião das tribos locais. Não se pode negar que a desunião tivesse alguma influência, mas imaginemos que, por mais avançados em suas arquitetura e no modo de condução de suas vidas, em floresta ou nas restantes cidades, a surpresa dos índios foi extrema ao avistar os europeus em suas caravelas. Talvez, menos por seu avanço em infra-estrutura, e mais pelo atraso em suas superstições, a batalha dos europeus, desde a original ilha caribenha invadida por Colombo, até a desoladora conquista dos territórios Maya e Azteca, foi infinita e superiormente desproporcional ao nível dos índios, originais habitantes dos territórios colonizados, mais cruel, desumana e opressora, por motivos mais banais, sem cultura ou estrutura pensamental antropológica, apenas pelo mais básico instinto animal pela busca e consolidação de um terreno.

No futuro, não se espantem se Gibson resolver fazer um filme sobre os muçulmanos, expressando seu primitivismo e sua barbárie, e o declínio de sua civilização, que antes se auto-desestruturou para que fosse assim possível a destruição pelas mãos dos Estados Unidos militar e seus aliados. Ele é um bom diretor, afirmo com toda a certeza que pode ter um mero espectador, como outro qualquer. Nenhum dos demais participantes da sessão sequer piscou os olhos durante o muito longa-metragem. O filme é bem filmado, bem traçado, bem falado, bem legendado, e tudo de bom que se pode dizer de um filme. Assustadora nem é a mensagem... Assustadora é a intenção do diretor, espelhada na frase inicial. Gênio, ele talvez pudesse ser, sem a frase... Talvez, com a mesma, torne-se ele o que, segundo Bush e para seu secreto agrado, chamar-se-ia de ‘Gênio do Mal’.

Roy Frenkiel, direto do site Reação Cultural, exclusivo para o Arte Free
http://reacaocultural.blogspot.com/

5.1.07

Seis Meses de Arte Free!!!

Seis meses de Arte Free!!!

Seis meses de existência. Com a idéia de aproveitar ao máximo da cidade gastando o mínimo (afinal, ninguém tem grana pra nada, nem nós), saímos pelas ruas de São Paulo atrás de arte, e arte da boa. Somos exigentes, não aceitamos porcarias. A arte não pode ser apenas gratuita, tem que ser de ótima qualidade.

Neste período de vida, o Arte Free recebeu apoio de muita gente. Vários colaboradores escreveram e escrevem para nós, leitores nos mandam dicas, assessorias de casas de shows ligam para falar sobre suas programações, blogs e flogs nos indicam, sites fazem matérias a nosso respeito, nossa comunidade no Orkut conta com mais de 270 pessoas, e os próprios artistas, que passam em nosso blog para deixar seus comentários sobre as matérias... Enfim, todos empenhados em desvendar a melhor da arte.

Tivemos alguns momentos gloriosos. A entrevista com Lenine foi um deles: enquanto toda imprensa se digladiava por um lugar na entrevista coletiva, o Arte Free conseguiu uma exclusiva, um pouco antes, ao lado do auditório do Ibirapuera. Uns 15 minutos de um papo sensacional. E que prazer conversar com a Fernanda Porto! Foram horas de uma conversa descontraída em seu estúdio quando ela falou de tudo, sobre sua vida, carreira, planos, influências. Depois de publicada a entrevista no Arte Free, o site oficial da cantora, Baque Virado, nos mandou um e-mail elogiando e pedindo para publicar a entrevista também em seu site.

Outro bom momento foi a matéria da 27a Bienal da Casa da Xiclet. Fiquei realmente surpreso ao ver o quadro de Marcela Tiboni ali, exposto em um dos quartos da casa. Era um quadro que eu já tinha visto em uma exposição no Instituto Cervantes, e o tinha descrito como um dos melhores. Melhor mesmo foi ver que um dos Comentários na matéria era da própria Marcela Tiboni. Ela elogiava o site e nos convidava para visitar seu atelier.

Uma vez me perguntaram: como você faz para descobrir estes shows, essas coisas? A resposta é simples: vou atrás, bato perna, ligo, mando e-mail. Sei que a maioria das pessoas não tem tempo de fazer isso, e é exatamente por isso que passamos dois dias por mês preparando uma agenda com inúmeras atividades gratuitas de Sampa. Fica no link Programação.

Temos uma média de onze mil acessos por mês, o que é bastante. As pessoas acessam e indicam para outras, que indicam para outras e para outras

É isso aí! Continuamos contando com o seu apoio, que nos leia, nos indique, nos dê dicas. Mas, mais importante que tudo isso, que nós possamos ser um incentivo para aproveitar a vida cultural paulistana!

Abaixo, alguns dos sites que fizeram matéria sobre nós e blogs e flogs que nos indicam:

Fizeram matéria sobre o Arte Free:
http://www.tramauniversitario.com.br/
http://www.baquevirado.com/ (fã clube da Fernanda Porto)
http://www.aomestre.com.br/lin/lin.htm
http://www.avenidacultural.com.br/

Sites que nos recomendam:
http://www.alfaiates.org.br/
http://www.dicadeteatro.com.br/
http://centauropress.sites.uol.com.br/clipcentauro.html
http://movil.be/index.php?s=delicious.p&tag=saopaulo/
http://3846.936aany45.info/
http://del.icio.us/url/4f123ce413653f15d1c260416d26a744
http://pt.88of100c.info/Deuses_gregos

Blogs que nos recomendam:
http://lavieestbleu.zip.net/
http://poucaseboasdamari.blogspot.com/
http://quimeropolis.zip.net/
http://dtomiate.blogspot.com/
http://lenitondias.blogspot.com/
http://nati-nati.blog.uol.com.br/
http://fabio.poeta.blog.uol.com.br/
http://cyberflo69.blogspot.com/
http://calmariaefuria.blogspot.com/
http://reacaocultural.blogspot.com/
http://fotolog.terra.com.br/travessao:78
http://donizetti.wordpress.com/
http://www.escolar.net/MT/archives/2006/10/candidables_del.html
http://rascunho-virtual.blogspot.com/
http://www.fightforyourmind.blogger.com.br/
http://blog.comunidades.net/loirazen/index.php?op=arquivo&pagina=6&mmes=11&anon=2006


Seu blog/flog/site também nos indica??? Deixe nos comentários o link que incluiremos na lista!

22.12.06

Teste: você entende de arte?

Teste: você entende de arte?

1 - Quem pintou o quadro Guernica, que retrata os horrores da Guerra Civil Espanhola?

a) Velásquez
b) Murillo
c) Picasso

2 - Quais bandas de Brasília surgiram do grupo Aborto Elétrico?

a) Paralamas do Sucesso e Legião Urbana
b) Legião Urbana e Capital Inicial
c) Paralamas do Sucesso e Capital Inicial

3 – Quem escreveu Capitães de Areia?

a) Marcelo Rubens Paiva
b) Euclides da Cunha
c) Jorge Amado

4 – De qual filme é a frase: “Francamente, minha querida, estou pouco me lixando”.

a) E o vento levou...
b) Ases Indomáveis
c) O pagador de promessas

5 – Quem foi o criador do estilo chamado Free Jazz?

a) John Coltrane
b) Ornette Coleman
c) Miles Davis

6 – Qual o nome da famosa série de livros de Julio Verne?

a) Volta ao Mundo em 80 dias
b) Viagens Extraordinárias
c) Alice no país das maravilhas

7 – Quem foi “o poeta dos escravos”?

a) Castro Alves
b) Casemiro de Abreu
c) Vinícius de Moraes

8 – Qual o nome do criador da história do Pinocchio?

a) Carlo Collodi
b) Henri Bergman
c) Irmãos Grimm

9 – Quem dirigiu Deus e o Diabo na Terra do Sol?

a) Augusto Boal
b) Arnaldo Jabor
c) Glauber Rocha

10 – Qual o autor do quadro O Grito?

a) Edvard Munch
b) Van Gogh
c) Pablo Picasso

clique aqui para ver o gabarito

16.12.06

Petit Música - Musiquinhas de natal

Musiquinhas de natal
por Luciano Piccazio Ornelas

Chegou o natal, época dos comerciantes faturarem e de muitos tirarem férias. Época dos discursos inflamados sobre espíritos natalinos, do décimo terceiro, décimo quarto, décimo quinto...

Para a música, é sempre um bom período. As festas pipocam para todos os lados, o tal espírito natalino floresce nos bolsos dos homens de negócios que, para impressionar, liberam a verba.

Floresce também, nas mãos compositoras dos músicos, músicas natalinas. E é exatamente aí que mora o perigo.

Quem agüenta ouvir Jingle Bells? Ou então "Happy Xmas", do John Lennon? São músicas que ficam armazenadas num potinho enferrujado no porão de uma casa velha, e que são tiradas todo o natal, invariavelmente.

Não sei quanto a vocês, mas essas músicas me deixam num mal humor danado, bem longe do tão almejado "espírito natalino". A pior coisa do natal é ouvir aquela versão da música do John Lennon em português. É para se jogar da ponte.

Aí os artistas se reúnem. Vestem-se todos de branco, seja natal, seja ano novo. Falam de paz, amor e esperança como se fossem palavras mágicas, que por si só resolverão o problema do mundo. É particularmente risível: "Desejo a todos paz, amor e esperança e um beijo bem quentinho no coração". Ok, então. Mas... o que você está fazendo para isso?

Não, cantar na Globo não é um bom jeito de atingir a paz mundial.

Realmente o natal traz coisas boas. O tal espírito natalino, por exemplo. Não é ótimo ver as pessoas se ajudando sem esperar receber nada em troca, mas simplesmente sendo movidas por um sentimento maior? Mesmo que só por alguns dias, é ótimo. Agora entram aquelas musiquinhas horríveis e o que acontece??? A pasteurização do natal!!!!! É paz e esperança pra cá, paz e esperança pra lá! E ninguém até agora parou para pensar seriamente nestas palavras. To começando a ficar enjoado delas.

Então uma dica, neste natal dê cds de música instrumental, qualquer que seja. Pra turma parar de se pasteurizar com o cd do Michael Jackson cantando um mundo mais bonito (uóóóó). Uma boa dica é Bolling Suíte For Flute, ou qualquer um do Jeff Beck. Só farei um pedido: peloamordeDeus, quebrem os cds de musiquinhas de natal!!!!

Luciano Piccazio Ornelas

Rave Cultural - Casa das Rosas - 9 e 10/12/06

Podia ter sempre

Imaginar uma rave cultural por si só já é um evento. Estimula a curiosidade de qualquer ser minimamente ligado em música, ou poesia, ou pintura, ou cinema, ou teatro, ou todos juntos.

A Casa das Rosas, um antigo e maravilhoso casarão da Paulista, agora cultural, com o nome de Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura anunciava a rave para comemorar dois anos de funcionamento. A festa, marcada para começar no sábado, dia 9 de dezembro, às 18 horas, só terminaria no domingo às 7 da manhã com a promessa de intensa programação.

Cheguei na Casa das Rosas lá pelas oito da noite de sábado, quando os músicos do Musiclube apresentavam-se no hall da casa, em um palco improvisado embaixo da escadaria de mármore, em frente as fileiras de cadeiras leves que acomodavam parte do público. Mas a platéia não esquentava muito o lugar, as pessoas dançavam, transitavam pelos corredores e salas, encontravam amigos e curtiam a música nos jardins. Todo aquele passear certamente era parte do cenário.

Logo na entrada, a programação era distribuída e anunciava que eu havia perdido a apresentação das 18, Desconcertos, quando proseadores dirigidos por Claudinei Vieira, abriram os trabalhos da noite. O Grupo de Criação Poética veio em seguida.

Mas, agora, eu assistia ao professor de História da Música Brasileira, André Domingues, apresentar seus convidados. Ao microfone, André anunciou Betinho Sodré e Ito Moreno: “Olha, eles são bons. Vocês vão gostar!”

Na verdade, eles eram ótimos. Incendiaram a pequena platéia das cadeiras leves e todo mundo lá fora. Violão e pandeiro, simples, bom, vibrante. A primeira música, Circuladô de Fulo poema de Haroldo de Campos, musicado por Caetano. Na seqüência, Geléia Geral do Gil e Torquato Neto esquentou ainda mais a apresentação. Em seguida, vieram três composições do Ito Moreno, uma delas Maracatu, Samba e Baião ..."Bate o pandeiro, quero ver o coro no calo. Quero ver o povo no embalo, um bate-coxa sem parar. O rola-embola da cantiga fez história! Misturo rola com bola, quero ver a língua embolar”. A apresentação passou rapidinha. Tinha ainda muita gente para tocar. Conseguimos um bis.

Terminado o show, sai. Fui fazer parte do cenário.

Subi as escadarias e no andar de cima, em uma sala próxima ao imenso banheiro, havia um papel impresso pregado na porta fechada. Ele anunciava os filmes da noite e da madrugada: O livro de Cabeceira Peter Grenway (20h), Laranja Mecânica, Stanley Kubrick (22h), O Sétimo Selo, Ingmar Bergman (00h), Crepúsculo dos Deuses, Billi Wilder (02h), Zelig, Woody Allen (04h).

Das varandas de cima, podia-se ver um certo tumulto no “quintal”, perto da edícula, local onde antigamente ficavam os empregados do casarão. Era a moçada a espera das apresentações teatrais dirigidas por Paula Chagas. A nova sessão teria inicio dali meia-hora, à meia noite.

Daí pra frente a programação seguiria com sarau aberto, forró, poesia Maloquerista, dança, tecnobeat, blacmusic, Dub Music, declamação...e para fechar, às sete de domingo, café da manhã.

Fui pra casa cedo, a uma da madrugada de sábado, mas tive a certeza de que quem ficou se divertiu muito. Fui pensando que aquilo tudo podia ter sempre.

Nota 10
Custo zero
Fui e voltei a pé


por Claudia Piccazio

8.12.06

Tom Zé (pocket show) – Fnac Pinheiros – 07/12/2006

Atingindo o alvo

Respeitado no Brasil e premiado mundo afora, Tom Zé é uma figura única no cenário musical. Sempre quebrando barreiras e impondo sua coragem e genialidade, não pode ser comparado com ninguém e nem rotulado. Uma garoa fina e irritante caia sobre São Paulo durante meu caminho até a Fnac Pinheiros. Porém, nem isso me desanimava, afinal a promessa era de um show inteligente, animado e divertido, assim como é aquela figura exótica e cativante que estaria lá para lançar seu cd “Disc-êh-sá”

Agora nomeado “Tão Zé”, entra no pequeno palco do Fórum da loja, vestindo trajes, no mínimo, curiosos. Tratam-se de uma mesa DJ simulada e algumas almofadas pretas ao redor. Ele desfila perto de nós, visando quebrar o gelo inicial e apresentar toda aquela parafernália em seu corpo. Então, acompanhado de um Dj com uma mesa grande e real para mixar os sons e fazer backing-vocals, a primeira música inicia. “Acum-Mahá” é o nome dela e este é exatamente o som proclamado pelos dois músicos em grande parte do tempo. Efeitos são misturados e acelerados, o que possibilita a estranha dança de Tom Zé, até que há uma quebra brusca no ritmo. Após o momento de calmaria, a parte anterior volta e encerra a canção. Sem letras geniais, apenas muito ritmo e efeitos. A coragem de Tom Zé em fazer mudanças e se reinventar estava clara mais uma vez.

No auge de seus 70 anos, o músico irreverente aparentava uma juventude nítida: dançava saltitante e tinha uma alegria nos olhos como se aquele fosse seu primeiro show na carreira. Seguiram-se explicações e piadas diversas. O porquê da ausência de palavras em todo o disco também se torna claro: toda a idéia do álbum surgiu com uma pesquisa feita entre os jovens e divulgada na Mtv. Tal levantamento indicava um grande desinteresse dos jovens por músicas longas e um egoísmo acima do normal. Pensando nisso ele trabalhou um conceito de fases e conflitos diversos, sempre tocando em outra idéia que lhe aflita: as suas origens africanas e mitológicas. Como afirmou: “A juventude é o meu alvo”


Após muito tempo de explicações, quase 10 minutos, o que interferiu ligeiramente no cansaço do público, ele voltou à mesma música para que agora pudéssemos entendê-la melhor. Houve mais declarações a respeito do mesmo assunto anterior e veio a música “Atchim”, em que Tom Zé pediu a participação do público em palmas e gritos. Foi neste momento então que todos mostraram o envolvimento e aprovação das novas idéias presentes nitidamente em todo o CD. A participação do DJ que colaborava com ele era essencial, com intervenções variadas e geniais. Após mímicas, gritos e muitas palmas, Tom pegou seu violão e voltou às letras: duas canções antigas foram tocadas em meio a mais algumas piadas para saudar antigos fãs que sorriam e cantavam eufóricos. Uma hora tinha passado levemente e a sessão de autógrafos, abraços e fotos começou, para presentear os merecedores acompanhantes daquela noite animada e irreverente em que Tom Zé, mais uma vez, mostrou força e coragem para alcançar um objetivo

Custos:

Transporte: R$ 4,60 (ônibus ida e volta)

Nota – 9,5

5.12.06

Rave Cultural

RAVE CULTURAL NA CASA DAS ROSAS
(Casa Haroldo de Campos)


Sábado 9 e domingo 10 a Casa das Rosas irá promover uma Rave Cultural que vai das 18h do dia 9 até as 7h do dia 10. É uma programação com bastante poesia, música, teatro e cinema. A agenda completa você pode conferir aqui.

É desse tipo de iniciativa que São Paulo precisa. Arte gratuita, de qualidade, aos montes e de uma vez só! Claro que o Arte Free não vai ficar de fora, e irá até a Casa das Rosas conferir as atividades.

Até lá!

Serviço:
Av. Paulista, 37 - Paraíso - São Paulo- SP
Fone: (11) 3285-6986

3.12.06

O Brasil de Marc Ferrez - Sesi - 03/12/06

O Brasil de Marc Ferrez

Sábado, caia uma chuvona. Saio do metrô Trianon e dou de cara com a imensa vitrine da Galeria do Sesi tingida de bordô, cor de caixas de bombons de antigamente, aquelas em veludo ou então camurça. Uma cor sofisticada, que sinaliza elaboração, luxo clássico, discreto, exatamente como as imagens expostas do fotógrafo carioca Marc Ferrez “O mais importante fotógrafo brasileiro do século XIX e inicio do século XX”

Entro na galeria e suas paredes estão ainda mais bordô e, no meio da cor, as fotos em preto e branco, expostas em diversos corredores e em pequenas salas que obedecem a uma ordem, um labirinto no qual somos orientados a seguir. Fico pensando na importância de Ferrez , mais até pela sua ausência. E se aquelas imagens não existissem? Perderíamos uma obra documental valiosa de um artista que registrou dois séculos em 50 anos de produção.

Saberíamos muito menos sobre as paisagens naturais e urbanas do Brasil, principalmente do Rio de Janeiro, as prediletas, e de São Paulo. E menos ainda sobre a vida daqueles anos registrados sob a perspectiva de suas lentes

Porque as imagens de Ferrez não se mostram meramente paisagens, o elemento humano, quase sempre presente, legitima a cena e dá informações valiosas sobre o comportamento da época. O fotografo constrói um cenário que ultrapassa, em muito, a própria imagem. Nesse sentido é imperdível a foto de um terreiro de café onde escravos trabalham. Lá eles estão com roupas diferentes entre si, alguns de chapéu semelhante a chapéu coco, alguns de paletó, e outros ainda com vestimentas diversas. As informações passadas na foto são muito interessantes principalmente para quem está habituado a associar escravos à calças enroladas até o joelho e torso nu.

Entro em uma das primeiras salas onde três painéis de cinco metros de altura cobrem todas as paredes. Neles, a tentativa de transmitir a sensação de magnitude de cachoeiras que despejam suas águas. Mas, o curioso é justamente o elemento humano nas fotos dos painéis, confrontado com aquela natureza. Moçoilas com vestidos fechadíssimos, longuíssimos, com direito a laço e almofadinha , chapéu e sombrinha, posam em pé. Em uma das imagens, um rapaz languidamente sentado sobre uma pedra tem boa parte da barra de sua calça molhada pelas águas, não fosse isso, seu traje poderia ser confundido com qualquer outro apropriado para um evento social.

Fotógrafo da Marinha Imperial e da Comissão Geográfica e Geológica do Império, Ferrez viajou por todo o país. Registrou as minas de ouro de Minas Gerais, os serviços de captação de água e as instalações urbanas do Rio de Janeiro. Em São Paulo, fotografou as fazendas de café, a cidade de Santos e o porto, além dos panoramas da capital. Não faltaram retratos da família real, de celebridades da época, de índios e negros

Nas saletas da Galeria do Sesi espalham-se 350 imagens do acervo de 5.500 do Instituto Moreira Salles (IMS). São registros que datam a partir de 1860, ano em que o fotógrafo iniciou suas atividades e produziu panoramas da cidade do Rio de Janeiro em negativos de grande formato (40 x 110 cm).

Quando chego bem ao centro da galeria, encontro a grande câmera que Ferrez utilizava para fazer as tais panorâmicas. Junto a ela estão todos os equipamentos usados por ele. Passo pelas vitrines que exibem negativos originais em vidro e paro nas reproduções de imagens feitas pela IMS em papel albuminado, técnica do século 19 realizada a partir de clara de ovo e exposição da imagem ao sol.
Saio dali com a sensação de que não vi tudo que deveria. Marc Ferrez conta muitas histórias. É para se ler devagar.


Custos

Uma passagem de metrô 2.10
Voltei para casa a pé

Nota 10

Serviço:
Exposição: O Brasil de Marc Ferrez – Fotografias do Acervo do Instituto Moreira Salles
Local: Galeria de Arte do SESI – Av. Paulista, 1313 – metrô Trianon-Masp
Exposição: até 4 de março de 2007
Horário: de terça a sábado, das 10h às 20h; domingos, das 10h às 19h

Por Claudia Piccazio

30.11.06

Transposições – Instituto Cervantes – 30/11/2006

Transpor culturas


Os elos entre a cultura brasileira e espanhola são facilmente perceptíveis em nosso país. Porém, também é inegável que há diferenças fundamentais, o que dificulta uma união artística, muitas vezes buscada em diferentes áreas, desde a música até a literatura. O Instituto Cervantes de São Paulo é uma instituição que trabalha com essa ligação hispânico-brasileira e traz a exposição Transposições com este objetivo. Através das obras de quatro artistas que vivem no Brasil, mas de origem e descendência espanhola, a mostra busca a provar a integração de influências existentes em quadros e esculturas feitas com técnicas diferentes.


Os quatro artistas que participam da exposição são: Margarita Farré, Luis Bayón, Pascualet e Paulino Lazur. A história de vida de cada um está diretamente relacionada com o Brasil. Margarita, por exemplo, só iniciou sua formação artística neste país. Ela trabalha com bronze patinado e trata de temas cotidianos e onipresentes na rotina de qualquer brasileiro. A obra “fila”, por exemplo, reproduz com fidelidade o sufoco que passamos rotineiramente em busca de qualquer serviço ou produto. Porém, a escultura “Decisão por pênaltis” foi a que mais me chamou a atenção, uma vez que os “bonecos” de Margarita passam uma emoção digna deste momento clássico e tão marcante na memória de qualquer pessoa que acompanha futebol mesmo a distância.

No lado esquerdo do espaço cultural do Instituto estão os quadros de Paulino Lazur. Com pequenas descrições manuscritas pelo próprio autor, a abstração aparente se torna cheia de simbolismo e incorpora leituras interessantes e até bem humoradas em alguns casos. Há referências curiosas em todas as obras: desde o lugar em que viveu no Brasil, Guarulhos, até o poeta pernambucano Manuel Bandeira. São pinturas com ligações entre si e que caracterizam a produção deste artista espanhol.


Os maiores e melhores quadros são de Pascualet. Apesar de ter nascido no Brasil, é quem mais inclui menções à cultura hispânica e latina em geral em suas obras. Ricas em detalhes e cheias de cores vivas e alegres, as telas apresentam uma beleza curiosa e única. Com “Mandala brasilis”, Pascualet retrata com lealdade sua paixão pelo Brasil em uma combinação de cores impressionante. Penas de animais são incluídas em algumas obras para dar mais valor e encanto a cada quadro.

Já as peças de Luis Bayón são interessantes, porém considero um erro colocá-las nessa exposição, já que é pouco perceptível a ligação de culturas. Ou seja, o objetivo da exposição não é conquistado completamente e perde um pouco de sentido. Entretanto, no fim é possível captar a variedade de ligações entre as duas culturas tão próximas e tão distantes, mas que conseguem unir-se através do talento. As transposições, objetivo dos curadores, são facilmente vistas e sentidas através da arte.
Custos
Transporte: R$0,00 (fui e voltei a pé)

Total: R$0,00

Nota – 8

Imagens de divulgação

28.11.06

Boris Gaquere e Renato Martins – Sesc Avenida Paulista – 28/11/2006

Obrigado por essa hora feliz

A mistura excêntrica de um violonista belga com um percussionista brasileiro seria, no mínimo, interessante. Com esta expectativa me dirigi até o Sesc da Avenida Paulista, afinal aquela variedade de influências e melodias atraia meu ouvido curioso. Após passarem pela Europa, Japão, Taiwan e Coréia, Boris Gaquere - o belga - e Renato Martins chegaram ao Brasil para lançarem seu CD “Tempo Feliz”, com composições próprias e de autores consagrados como Baden Powell e Paulo Balineti.

O auditório estava lotado quando o show começou pontualmente às 19 horas. Poucos instrumentos, mas um som complexo: notas rápidas e percussões que encaixavam na melodia. Boris Gaquere apresentava uma técnica magnífica: por vezes a impressão era que havia mais dois ou três violões no palco ou que ele tinha mais que cinco dedos, tamanha era sua velocidade. O entrosamento entre os dois músicos era evidente e inspirava segurança em todos os presentes. O público era formada em sua maioria por adultos e idosos, naturalmente fãs de música clássica e freqüentadores assíduos do programa “Instrumental Sesc Brasil”, que traz convidados cada vez mais célebres.


Renato Martins possui uma técnica singular e que realmente deixa qualquer pessoa atônita: em um simples vaso de barro ele cria diversos sons. Com a palma aberta ou fechada, nas pontas dos dedos ou ao tampar e abrir a saída de ar, o percussionista brasileiro encaixa efeitos essenciais para as musicas bem escolhidas para o show. Não há mais palavra para definir o talento ali apresentado que não seja: chocante. Apesar de alguns solos ultrapassarem o limite de cansaço, todo o público correspondia com aplausos que se tornaram cada vez mais fortes após grandes destaques, como “Baile Funk”, “Sai do Chão” e “Pulo do Gato”.



Boris nem parecia belga, se não fosse o sotaque apresentado entre cada canção: com arranjos tradicionalmente brasileiros ao extremo e o complemento perfeito de Renato, o violonista assemelhava-se mais a um experiente integrante da Bossa Nova. A brasilidade ali apresentada era evidente, atraindo sorrisos, pés batucantes e gritos ensandecidos. A simpatia e carisma apresentado por piadas e diálogos diretos faziam com que não quiséssemos nos retirar do auditório. Porém, após mais uma bela música intitulada “Obrigado”, e alguns bis, o show acabou. Mas eles nem precisava agradecer. Obrigado, dizemos nós, aos dois!

Custos:

Total: R$ 0,00

Nota - 8,5

26.11.06

Causos - Beijo Beat

Beijo Beat
por Carol Bataier

Sabe Geração Beat? Drogas, poesia, jazz e sexo livre? Jack Kerouac? Pois é, nós tínhamos um trabalho pra fazer sobre os caras. Teríamos que apresentar algo muito bom e que de alguma forma resumisse em, no máximo 30 minutos, o que foi a Beat Generation.

O trabalho era pra faculdade, mas a galera do grupo fazia teatro. E, atores narcisistas que somos, não nos contentamos em fazer somente um filminho no movie maker sobre o movimento e a vida dos caras. Resolvemos fazer uma apresentaçãozinha meio assim teatral. Cenário de bar, vinhos e cigarros sobre a mesa, e nós em meio a fumaça e luz vermelha lendo poesias beatniks.

O auge da loucura seria o poema “O Uivo”, de Allen Ginsberg.

É um poema escancarado, louco, erótico, tudo. Uma viagem.

E foi ai que tivemos a idéia: seria legal se, no meio do poema, dois caras se beijassem. A intenção não era exagerar ou apelar. Somente mostrar o que realmente foi o movimento e talvez causar em alguns o espanto, assim como os beats causaram com toda a sociedade norte-americana dos anos 50/60.

E a idéia evoluiu. Decidimos chamar dois caras aleatórios, desconhecidos da turma (já que seria apresentado na faculdade), e deixá-los no “bar”. Todos imaginariam que eles fossem meros figurantes, somente acentuando o climinha de boteco. Então, no auge do poema, quando um dos atores gritasse: “que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livremente seu sêmem para quem quisesse ver”, os garotos se beijariam.

Mas tínhamos que arranjar os garotos. Depois de mil telefones e de ouvir “nãos”, “não dá”, “tenho vergonha”, tivemos uma idéia mais prática: ir até uma outra Universidade e procurar alunos do curso de artes cênicas que estivessem dispostos a nos ajudar. Encontramos um rapaz muito legal. Faltava o segundo. Procuramos, procuramos e nada. Fomos dormir e a apresentação seria na noite seguinte. .

Acordamos já pensando no segundo ator. E o encontramos assim, bem por acaso, recrutando pessoas na faculdade: “Oi, nós temos uma trabalho e blabla...”

Explicamos tudo e os garotos só se encontraram na hora da apresentação e pouco puderam conversar a respeito da cena. Nós, do grupo, explicamos assim: “Vocês ficam livres para conduzirem da maneira que acharem melhor. Podem somente insinuar um beijo, um selinho, se quiserem...”

Chegou a hora. Fumaça, jazz e luz vermelha. Mesinhas de bar, tudo como o planejado. Eu na mesa ao lado, fumando. Um dos atores se levanta, recita, grita, dá a deixa enquanto direciona seu olhar para os garotos, conduzindo assim o olhar do público. Os garotos se abraçam, mãos na nuca, se puxam, se pegam, se beijam, quase caem da cadeira. A cena comove até nós do grupo, que esperávamos leves carícias.

Olhares espantados por todos os lados. A poesia continua no ritmo do jazz. Aplausos. No final o professor, um ser quase inatingível, desses que a gente nunca vê pelos corredores da faculdade, diz, emocionado, que foi maravilhoso. E assim, meio que no susto, todo mundo sentiu bem o clima beat, esse desbunde escancarado, essa loucura inebriante.


Carol Bataier é estudante de jornalismo