11.11.06

Primeira pessoa – Itaú Cultural – 11/11/2006

Viva a vida, viva a interação

A nossa existência e intimidade é um tema freqüente nas diversas linguagens da arte e pode ser abordada em inúmeros aspectos. Pensando nessa variedade de idéias em torno de um tema tão recorrente e fundamental, a mostra Primeira Pessoa foi desenvolvida para abranger a maior quantidade de informações a esse respeito. Traz obras de 13 artistas como José Rufino e Albano Afonso, todos unidos pela linha narrativa da autobiografia e memória. É apresentado o paradoxo entre individualismo e interação.

Em qualquer exposição que vou sempre gosto de ver a capacidade que os autores tiveram em criar meios de interação com quem vai observar sua obra. E neste ponto a exposição do Itaú Cultural está perfeita. A grande maioria das obras não é apenas observada. Nos quatro andares do local sempre há som, contato e liberdade. Desde quadros e objetos até projetores e televisões, a criatividade transborda, o que nos brinda com uma sensação permanente de movimento e fluxo.

Difícil é escolher o que mais chamou minha atenção. Logo na entrada, Emil Forman faz uma instalação fotográfica sobre a sua mãe, retratando as recordações que sentimos. Ao subir para o mezanino vemos mais objetos dispostos para atiçar lembranças e saudades. O grupo Lume de teatro expôs, com ajuda da curadora Christine Greiner, souvenirs coletados em suas viagens pelo mundo. Neste mesmo andar, ainda temos a surpreendente obra de Albano Afonso, que apresenta a série Como Me Vejo/Como Eles Se Viam, em que mistura genialmente a sua imagem com as imagens de grandes artistas, como Rembrandt, Velįzquez e Courbet. Neste momento percebemos como refletir é viver, a partir da descoberta de novas visões e leituras em cada quadro.

Descendo para os subsolos era difícil prever quais eram as outras surpresas nos aguardavam, mas a certeza de que não haveria decepção era absoluta. Então vejo projetores. São documentários de Cão Guimarães, retratando o que acontece quando nossa intimidade é observada por pessoas que não nos conhecem. A vontade é de assistir a todos filmes, porém a curiosidade com o que está à nossa frente é ainda maior. Parece um lago, há alguma galochas e objetos pendurados no teto. É possível pisar naquela superfície para descobrir um novo mundo artístico com o Teatro de Vertigem.

Em meio a tantos artistas geniais, Hermeto Pascoal também marca presença. Partituras de seu projeto, em que escreveu uma música para cada dia do ano, são montadas para a exposição em que mergulhamos em um mundo de belas composições, como um trecho que inspira o título dessa resenha: “Viva a vida, viva o som”. Descendo mais um andar, temos televisões e obras menos interativas, mas não menos interesantes. Os autores também aparecem nas telas para comentar a própria obra neste projeto grandioso.
Ao final, ainda mais interação: cada visitante pode criar seu próprio catálogo com resumos sobre os espaços vistos. Diversos textos e fotos estão disponíveis para a montagem de uma recordação valiosa. Impossível esquecer tamanha qualidade artística e criativa.


Custos:
Transporte – R$ 0,00 (ida e volta a pé)
Salgado e refrigerante - R$ 4,00
Total – R$ 4,00

Nota – 10


por Allan Brito

Um comentário:

Carol Bataier disse...

Mto legal a foto. Tbm adoro interação! =)