24.8.06

Agnès Varda - CCBB - 23/08/06

Como vagar docemente pela miséria humana

Desço as escadas do CCBB em busca de Agnès Varda. Interessa-me muito pensar que verei em breve o olhar fotográfico de uma cineasta; ver como alguém que trabalha com o movimento da imagem decide cristalizar um instante. É interessante ver qual segundo decide paralisar. Por este motivo decidi levar-me até esta exposição.

Agnès Varda parece sempre procurar algo. Suas fotos têm uma semelhança visível umas com as outras; seja na China, seja em Cuba ou em São Francisco (EUA), o olhar desta cineasta captura uma emoção só.

O flaneur, caminhar despreocupado pelas ruas tentando enxergar o mundo de maneira nova, prestando atenção nos detalhes que passariam desapercebidos por pessoas que já entraram na rotina da cidade, é presente de forma clara nas fotos. Mas também há nelas a mistura deste flaneur com um tipo de vício. Varda busca em todos aquilo que ainda não encontrou resposta.

No vídeo explicativo da sala que fica logo na entrada da exposição, a cineasta explica que nunca pretendeu dizer nada com as fotos que tirava. Apesar disso, vemos fotos de Cuba e, em todas, há imagens de Fidel Castro. Numa delas, há o próprio com pedras atrás, que lembram asas de chumbo. Na China comunista, pergunta no título de uma das fotos se as pessoas daquele lugar seriam trabalhadoras ou servas. Há sempre uma pergunta a ser respondida nas fotos de Agnès Varda, e normalmente temos de engolir a seco antes de responder.

Os primeiros trabalhos de Varda foram como fotógrafa, mas o que a imortalizou foi o cinema. Considerada por muitos como uma das cineastas mais importantes do século passado, pertenceu ao time dos precursores do Nouvelle Vague, nos quais se encontram Godard e Truffaut.

Além da exposição de fotos, há também uma mostra (paga) dos filmes de Varda. Um dos mais interessantes é Cléo das 5 às 7, um longa-metragem em tempo real que conta a saga de uma mulher que espera pelo resultado de um exame de câncer. São duas horas de agonia.

As imagens de Agnès Varda são impactantes ao mesmo tempo em que são doces. Consegue misturar a beleza humana com a crueldade da miséria.

Custos
Ônibus - R$ 2,00
Lanche - R$ 3,00
Total - R$ 5,00
Nota - 8,5
Concepção da mostra: Agnès Varda

7 comentários:

Carol disse...

Sabe...q até gostei do seu texto!haha
Mto bom!
Sinto falta dessas coisas por aki, sabe?
Passarei mais vezes por aqui de agora em diante!

carol disse...

(comentário meio vago o mue...é o sono!)

Bjus

Anônimo disse...

Tão bom que eu quero ver a exposição. Texto 10. Luc Limas

Alan de Faria disse...

Estou querendo ver essa exposição. Não conhece o cinema de Agnes Varda, mas me interessei pela exposição. Foi capa da Ilustrada esta semana.
vamos que vamos!
até mais
se cuida!

Flávia disse...

Não diria que "cleo das 5 a 7" são duas horas de agonia, mas sim de descobertas - talvez um pouco dolorosas. E a própria Agnés disse, em entrevista à Folha, que não se identifica com o movimento da Nouvelle Vague. Só para encher o saco...rs.

Parabéns, Lucio!

Luciano Piccazio Ornelas disse...

se identificando ou nao com o Novelle Vague, o fato é que ela participou do movimento... rsrsrs

quanto à duas horas de agonia... descobertas podem ser bem angustiantes, até onde se sabe!

só pra replicar a enchida de saco, como sempre!

beijos

Lira disse...

Caro Luciano,
Um operário do olhar cotidiano.
Várda tem essa doença do olhar, não?!
Fico feliz que esteja se blogueando por aí e desculpe-me por demorar tanto tempo para fazer um comentário.
Deixo registrado aqui sua grande contribuição cultural na Cásper com o nosso Sarau.
Bom retorno aos dias de aulas.
Grande abraço.