14.7.06

Circuito de Cinema: Festival de Cinema Latino Americano e Mostra Oriente Contemporâneo 11/07/06 e 12/07/06

Maratona cinematográfica

Terça feira à noite iniciei um circuito de cinema pela cidade, passando por dois festivais bacanas que estão acontecendo esta semana: o I Festival de Cinema Latino Americano que acontece no Memorial, Cinesesc e na Cinemateca até domingo e a mostra de cinema oriental no Cinusp, que vai até o fim do mês. Cheguei ao Memorial da América Latina às 7 horas da noite, os ingressos só seriam distribuídos a partir das sete e meia, o que significa uma hora e meia de espera até o filme começar. O tempo de espera foi gasto num lounge aconchegante, colorido, com bom fundo musical, montado no prédio onde ficam as salas de exibição.

Ao entrar na sala, a boa impressão começou a ser desfeita. A sala 3 do Memorial foi claramente improvisada, cadeiras duras, tela pequena, poucos lugares. Mas o pior ainda estava por vir. Monobloc foi, para mim, decepcionante. O filme conta a história de três mulheres problemáticas: a avó, a mãe e a neta. A mãe entra em depressão após ser demitida de um parque de diversões falido, onde trabalhava vestida de Minnie. A avó passa os dias numa piscina imunda no terraço do apartamento, na companhia de sua neta, uma garota apática manca de uma perna.

A narrativa lenta, o filme monocromático e monossilábico mostra a maneira encontrada pelo diretor Luis Ortega para envolver o espectador no universo angustiante e perturbador em que vivem as personagens de Monobloc. O resultado é um filme tedioso, em que o tempo custa a passar; fiquei pelo menos 60 dos 83 minutos do filme torcendo para que ele acabasse logo. E não fui a única, boa parte dos espectadores saíram da sala no decorrer sessão. Outros pontos negativos dessa sessão foram que, além dos bocejos, ouvia-se barulhos externos à sala como algo que parecia com um trem passando de tempos em tempos e sons de diversos instrumentos musicais, como num ensaio.

Porém, se Monobloc decepcionou, o mesmo não aconteceu com os filmes assistidos na quarta-feira. Fui à USP ver se minhas notas já haviam sido liberadas e acabei indo até o Cinusp ver o que estava passando. Casa Vazia é um filme que eu há tempos estava interessada em assistir. Mas, mais interessante que o filme, foi assistir a sessão acompanhada por duas meninas de onze anos que vivem na São Remo, favela ao lado da cidade universitária. Ficamos conversando por quase meia hora antes das portas serem abertas quando fui convidada para sentar junto delas: “vamos sentar lá no fundo com a gente, tia!”. Elas assistiram ao filme, que é praticamente mudo, atentas. Volta e meia perguntavam alguma coisa para entender melhor a história, que no melhor estilo oriental, narra o cotidiano de um jovem que invade durante o período de um dia casas onde os moradores não estão no momento. Em uma dessas vezes ele é surpreendido pela dona da casa que invade, que acaba se tornando sua companheira.

No final dessa sessão, percebi que de fato o Cinusp é, na medida do possível, democrático e acessível. Minhas acompanhantes na sessão, Fernanda e Tainá, me disseram que já vieram outras vezes, inclusive esse mês assistiram à animação japonesa “Castelo Animado”, que também faz parte da mostra mensal “Oriente Contemporâneo”. Apesar de as meninas não serem o público padrão esperado para festivais de arte, mesmo quando são gratuitos, elas também podem ter sua vez e seu espaço, basta terem interesse, estímulo e não se deixarem abalar pelos olhares preconceituosos alheios. Voltei para casa com a impressão de que a porta entre a USP e a São Remo é de fato existente, construindo aos poucos uma ponte entre a realidade dos becos da favela e a arte e cultura de graça à disposição na Universidade.

E não foi aí que a minha maratona cinematográfica terminou. Passei em casa para um lanche rápido e fui em direção ao Cinesesc, na rua Augusta, assistir a exibição de cinco curta-metragens. Dentre eles chamo atenção para “Clandestina Felicidade”, de Marcelo Gomes e Beto Normal, os mesmos diretores do longa “Cinema, Aspirinas e Urubus”, que baseando-se nos contos de Clarice Lispector narram a infância da autora vivida no Recife. Os outros filmes exibidos nessa sessão foram “Insolação”, um curta muitíssimo bem-humorado do diretor argentino Gustavo Taretto; “Caramujo-Flor”, no qual acabei cochilando; “E-mail para Mamãe”, que apesar da pouquíssima duração é surpreendente e muito bem bolado; e, por último, “A invenção de Morel”, filme mudo, em preto e branco, que pelo que entendi fala sobre a invenção do próprio cinema.

A volta para casa dessa vez foi complicada, não havia muitas linhas de ônibus circulando na cidade àquela hora em decorrência dos ataques do PCC. Depois de duas horas de espera por um ônibus que não veio, fui embora de carro com a minha irmã.

O pensamento que me ocorreu no momento de total caos na cidade de São Paulo foi que este parecia um reflexo dos contrastes que observei no decorrer dessa quarta-feira. As meninas com quem compartilhei uma sessão de cinema vivem em uma realidade totalmente diferente da minha e da maioria das pessoas que estavam naquelas salas; vão aos sábados na penitenciária visitar parentes presos, não moram em ruas ou avenidas, mas em becos (nas palavras das próprias), brigaram com uma “ex-amiga” porque “ela roubou coisa dos outros, e isso é feio”; as histórias que contam são ilustrações de uma realidade muito mais difícil, de quem não teve as chances que eu, e provavelmente a maioria dos leitores desse blog, tivemos.

De quem é a culpa? Do governo que diz que não pode fazer nada com os milhares de presos submetidos a condições desumanas? De quem fecha a janela do carro e desvia o olhar da realidade das milhares de Fernandas e Tainás que existem por aí? De quem fica com medo de sair de casa e interrompe a rotina para ficar vendo ataques na tv comendo pipoca? Da crueldade dos presos? Da falta de segurança nas penitenciárias? Dos baixos salários dos policiais? É para se pensar. Não sou a favor de queimar ônibus, jogar bombas em bancos ou matarem agentes penitenciários. Mas também não acho que a solução mais cabível seja a de “passar fogo nos bandidos”, como parece ser a opinião de muitos. Francamente.

Custos:

Terça-Feira: 1 real do ônibus para ir+2 reais por um pipoca com sabor de quatro queijos+0 reais por uma carona.
Quarta-Feira: 1 real para ir para o cinesesc (voltei de carona e fui e voltei da USP à pé).
Total: 4 reais

Nota:
Monobloc: 5 (valeu pelo lounge, pela pipoca e pela intenção do festival)
Casa Vazia: 8
Curtas: uma média de 7

2 comentários:

Luciano Piccazio Ornelas disse...

Muito legal sua peregrinação pelos cines de São Paulo... Melhor ainda saber que a Arte Free não está só restrita a um pequeno grupo de interessados, mas sim a muito mais gente que já se deu conta de como a gente pode se divertir e aumentar nossa bagagem cultural sem gastar nadinha!

disse...

Bem, vamos por partes, hehe.

A estrutura montada no Memorial para o Festival é muito interessante. Gostei do lounge que fizeram no saguão, embora tenham me falado que há momentos em que o som do DJ vaza para dentro das salas. Quanto à sala 3 não posso comentar, pois só estive na 1 e na 2 - que são MTO boas, aliás. Assustadoramente grandes...

Não vi nenhum destes dois filmes, mas tinha lido a sinopse do "Monobloc" e algo já me dizia que poderia ser roubada. Hehe. É difícil ter fôlego para sustentar uma trama pesada em um longa-metragem. Uma pena ser tão ruim, pois o cinema argentino tem revelado muita coisa bacana nos últimos anos. Já o "Casa Vazia" segue uma tendência da produção oriental: a surpresa. Posso citar aqui (de acordo com o meu gosto, é claro) filmes maravilhosos, como "Oldboy", e outros que deixaram a desejar, como "O Tigre e o Dragão". E você nunca sabe o que encontrará pela frente ao comprar entradas para um filme oriental.

E o que aconteceu contigo no Cinusp é algo que deveria se repetir em qualquer sala de cinema deste país, sabe? É claro que falta informação para certos setores da população, que PRECISAM saber que a cidade oferece opções de cultura com preços acessíveis. Não é algo unilateral, que dependa exclusivamente de recursos estatais. A receita é política de investimento + população informada.

Por fim, essa história do PCC é bem, mas BEM esquisita.

Ótimo texto, moça!