3.7.06

O Marinheiro - Casa das Rosas - 02/07/06

O Marinheiro de Pessoa (teatro)

Confesso que não sabia. Fernando Pessoa, além de poeta, também foi dramaturgo. Quando descobri que uma peça de sua autoria seria encenada na Casa das Rosas, não tive dúvidas e fui lá checar. O título da obra – O Marinheiro – não me surpreendeu, já que Pessoa, como bom português, tinha fascínio pelo mar. Mais ainda pela figura do marinheiro, este solitário viajante que percorre milhas e milhas em busca de si mesmo.

Cheguei às 17:50, dez minutos antes da abertura marcada da bilheteria. Com doze minutos de atraso, os ingressos começaram a ser distribuídos (de graça, bem ao estilo Arte Free). Como a peça só começaria às 19:00, tive tempo de tomar um cafezinho e ler o folder do espetáculo. Tomado o cafezinho, fui à peça.

Imagine o cenário de Dogville, onde é tudo desesperadamente cru. Pedras ao chão, como num ritual bruxo da Idade Média, limitavam o pequeno palco colado à platéia. Cerca de cinqüenta pares de olhos percorriam o cenário enquanto três irmãs ajoelhadas balançavam seus corpos para frente e para trás. As três, vestidas como ninfas gregas, velavam o corpo de uma quarta irmã. Num quarto qualquer de uma madrugada qualquer.

A peça fluía em diálogos rápidos, e a angústia das irmãs invadiu o público. A sensação era a de que estávamos no Teatro do Absurdo de Beckett, e nos encontramos, de repente, Esperando Godot. Correntes atadas às mãos de duas personagens e aos pés de outra as aprisionam, impedem-nas de sonhar.

A irmã mais velha era a única que possuía o dom de imaginar e, a partir de um sonho que teve, conseguiu retirar suas irmãs de suas correntes, assim com a si própria. “À medida que vou contando, é a mim que o conto”. Sonha com um marinheiro que partiu pelos mares a idealizar um novo país, uma nova terra, uma vida utopicamente bela. A partir disso, a imaginação da irmã mais velha rola solta, até o momento em que retoma a triste realidade impelida pelas insistentes perguntas de suas irmãs, inteiramente absortas no sonho. Voltam, todas, a serem acorrentadas.

As pedras que envolvem o palco vão sendo colocadas no meio do cenário ao longo da peça, toda vez que alguém se sente triste, pesada. Os olhos das três parecem marejados, como se há pouco tivessem chorado todas as suas lágrimas. Uma das coisas mais bonitas da do espetáculo é que as três meninas parecem dançar em palco. Falei que estavam vestidas como ninfas. De alguma maneira, se movimentavam como tais.

A peça O Marinheiro é excelente. Sou fã de Fernando Pessoa há muito, e durante a encenação por pouco não desatei a chorar. É como se o poeta surgisse nos rostos e expressões das atrizes e gritasse na nossa cara seus sentimentos; ou seja, nossos sentimentos. Parecia que seus poemas tinham criado vida nas pessoas daquelas três irmãs.
E a peça acabou, com o fim de um não-sonho.

Depois do fim
Eu havia sentado na primeira fileira, e durante o espetáculo anotava algumas coisas num papel. Coisas para lembrar. Após os aplausos, as três vieram a mim: “você é de algum jornal?”. Conversei com as atrizes, principalmente Ester Lopes (irmã mais velha), que é a assessora de imprensa da trupe.

Bati um papo também com o diretor Wolney de Assis (foto 2). Figura extremamente simpática, Wolney me lembrou sobre o lado esotérico de Pessoa, que tanto influenciava suas obras. Falei sobre a semelhança de O Marinheiro e Esperando Godot, e, concordando, me disse que colocaria Edgar Allan Poe nesta lista também. Perguntou se eu tinha visto o filme Os Matadores, de sua direção. O filme é famoso, eu sei, mas ainda não assisti. Quando nos despedimos, mandou o recado: “não esquece de assistir, heim?”.

Vale a pena conferir O Marinheiro. Só tem que correr se quiser pegar o espetáculo de graça, porque depois de 21/07 os ingressos começarão a ser cobrados.

Elenco:

Irmã mais nova – Janaína Ávila (de vestido vermelho)
Irmã do meio - Flávia Pinheiro (de vestido branco)
Irmã mais velha – Ester Lopes (de vestido azul)

Direção:
Wolney de Assis

Custos:
1,40 – cafezinho (caro, eu sei)
Transporte - fui a pé

Nota do espetáculo: 9

Serviço:
Sexta e sábado às 21h e aos domingos às 19h.
Até 16/07 entrada gratuita; de 21/07 à 3/09 – R$20,00
Retirar convite uma hora antes
Duração – 1h15min
(Clique nas fotos para vê-las ampliadas. Todas as imagens desta matéria são propriedade exclusiva do Arte Free)

2 comentários:

gus disse...

bom texto, hein lu...gostei!! meu garoto! aprendeu direitinho

Dani Dias disse...

Fernando Pessoa já seria motivo suficiente para assistir a essa peça. O texto faz com que a vontade fique irresistível. Adorei. Meninos, parabéns pelo blog :-)