13.7.06

A Voz do Provocador - Teatro João Caetano - 11/07/06

Provoque-se

Teatro João Caetano, 20:30. Duas grandes caixas da campanha do agasalho aguardavam ansiosamente o público para o início do Festival de Inverno da Vila Mariana. Para qualquer uma das nove únicas apresentações, o ingresso é a doação de um agasalho.

Edson Silvestre e seu saxofone já estavam lá quando cheguei, soando uma harmônica música ambiente no saguão, que contava ainda com três mesas enfeitadas com vasos de flores e taças de vinho e champagne. Estava sendo preparado um coquetel de inauguração para receber os espectadores após o término da peça. A Voz do Provocador, título da peça, é de autoria de Antônio Abujamra, que também atua no espetáculo.

Surpresa com a bela recepção, avancei as cortinas do auditório ao som de Chega de Saudade, tocada no sax. Em poucos minutos, o teatro, com capacidade de 400 lugares, lotou. Pontualmente às 21:10 – o espetáculo estava previsto para às 21:00 – Fábio Lepique, subprefeito da Vila Mariana, sobe ao palco, faz os devidos agradecimentos e diz: “O falecido governador Mário Covas costumava dizer que ‘os três maiores pecados da política são: furar fila, interromper jogo de futebol e atrasar almoço’, permito-me acrescentar mais dois: atrasar coquetéis e peças de teatro. Com vocês, Antônio Abujamra”.

O provocador entra em cena, deixando dúvidas se é um personagem ou se é Abujamra - ele mesmo – o provocador. Senta-se na cadeira que, junto a uma mesa, propõe único cenário ao espetáculo. A peça, como define o autor, ator e diretor, é um tributo para Spalding Grey, ator e escritor americano que atuava acompanhado apenas de cadeira, mesa e copo d’água. Um único foco de luz incide sobre ele, deixando o palco escuro numa clara relação com a tela sombria de Provocações, seu programa exibido na TV Cultura.

Antes mesmo de cumprimentar o público, põe-se a recitar Victor Hugo Rascón em sua declaração Um raio de esperança de 27/03/2006 – o dia mundial do teatro. Transcrevo apenas uma parte do discurso, porém, vale a pena conferir na íntegra: “O teatro comove, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. É uma conversa partilhada com a sociedade. O teatro é a primeira das artes que se confronta com o nada, as sombras e o silêncio para que surjam a palavra, o movimento, as luzes e a vida. O teatro é um ser vivo que consome a si mesmo enquanto se produz, e constantemente renasce das cinzas. É uma comunicação mágica na qual cada pessoa dá e recebe algo que a transforma. O teatro reflete a angústia existencial do Homem e revela a condição humana”. E Abujamra complementa como num momento epifânico: “O teatro é o asilo dos loucos”.

Para dar continuidade à peça, que já parecia ter chegado em seu clímax ao término dos primeiros dez minutos, Abujamra pede para que se acendam as luzes da platéia e, diretamente para ela, diz: “Vocês podem fazer as provocações que quiserem, que não darei a menor bola”, todos riem e a aproximação público-palco é atingida. Desconfio que tenha sido um cumprimento, apenas.

As luzes permanecem acesas durante todo o espetáculo provocante. “Querem saber, meus senhores? Eu não sou um provocador, eu sou um provocado. E tem uma palavra que me provoca: educação”. Com seu humor corrosivo, Abujamra passa por questões como a educação no Brasil, a diferença de gerações, a internacionalização da Amazônia, a televisão ao vivo e até o personagem "Havengar" interpretado na novela Que rei sou eu?.

Com cinismo picante pergunta à platéia: “onde estão os jovens para nos desrespeitar?” Nessa hora, segurei-me na cadeira e o “estou aqui” - como grito e protesto - ficou contido e morreu na garganta. Tive tempo para pensar que o meu grito podia ser de vaidade. Queria conseguir desrespeitá-lo.

De maneira instigante pede para reproduzirem no telão o poema que por ele havia sido declamado em seu programa, Mude, de Edson Marques, o que me fez ter vontade de mudar de posição na poltrona em que estava sentada. Cruzei as pernas.

Afora a prepotência gostosa que é pleonasmo para Antônio Abujamra, ele, como uma avalanche, cumpriu o que lhe fora proposto: a desconstrução.

O coquetel posterior, regado a queijos, vinhos e canapés foi, para mim, a continuação de A Voz do Provocador e, embora muito bem servido, com a bela música soprada de Edson Silvestre, pensava numa maneira de ressuscitar a geração que não desrespeita. Voltei para casa e comecei a escrever.



Texto, direção e atuação: Antonio Abujamra
Produção: Cláudio Tizo

Custos:
ida – 1 real com bilhete único estudante
Volta – carona.
Total: 1 real (incluso comida e bebida!!)

Nota: 8,0

(Clique nas fotos para vê-las ampliadas. Todas as imagens dessa matéria são propriedade exclusiva do Arte Free).

2 comentários:

Luciano Piccazio Ornelas disse...

Carol, animal... li tres vezes

fellipe_boca disse...

olá carol...

Assisti a essa peça, no sesc santana...

sai do teatro com a mesma vontade que vc...
de tentar fazer alguma coisa para provocar... provocar os governantes, o povo, a sociedade...

Me senti como um idiota...
sem poder retrucar nda dq foi dito dentro daquele teatro, mais aqui fora estou tentando gritar, pra ver se alguém me ouve...

CANSEI SER PROVOCADO...
AGORA QUERO PROVOCAR...

Parabens pelo blogger...

Adorei a materia sobre o show do cordel, no Ibirapuera... etive lá tbm...

Só não fui no show do teatro magico, pq não fiquei sabendo, mais tenho certeza que foi assas maravilhoso...

PARABENS...
Visitarei seu blogger sempre...

Amanheça brilhando mais forte...